HIC MANEBIMUS OPTIME

 

 

Viajando em Minas, de Brumadinho para Belo Horizonte, logo após a cidade de Mário Campos, deparei-me com um portal elegante, de grossas pilastras cujo parte superior trazia ornamentos, guarnecido por amplo portão de grades de ferro fundido, também ornamentado, enfim, um conjunto imponente, apenas essa peça arquitetônica isolada no alto de um morro, às margens da MG 155, já no município de Betim.

Várias vezes passei ao lado daquela espécie de monumento, ao qual praticamente ninguém dá a menor importância. Reparei na parte superior do portal um nome e uma frase. Anotei, até com um pequeno erro pois o tempo desgastara a inscrição que, mesmo assim, é bastante visível. Lá estava o nome: Colônia Santa Isabel. (1) E a frase, em latim: HIC MANEBIMUS OPTIME.

A primeira coisa que fiz foi buscar a frase na rede a fim de saber o que significava. A tradução do latim foi essa: “Aqui ficaremos bem”. Seguiu-se a história de que se origina: em 390 antes de Cristo, Roma foi incendiada na guerra contra os Gauleses. Os senadores em reunião discutiam se reconstruíam a cidade ou mudavam-se para Veio (em latim Veii), cidade que ficava a 15 km de Roma.

Enquanto os debates prosseguiam, os soldados romanos se movimentavam por ali e em dado momento o centurião deu ordens ao porta-estandarte para cravar a bandeira gritando: Hic manibus optime! isto é, Aqui ficamos bem. (Há nesta versão uma pequena diferença, talvez relativa ao tempo verbal, perdoem-me os latinistas).

A frase foi ouvida pelos senadores que a tomaram como um bom presságio. Decidiram ficar, isto é, decidiram pela reconstrução de Roma. Esta mesma frase pontuou outros relatos, aplicada a circunstâncias e sentidos diferentes do sentido original com o qual, no entanto, dialogava. E foi usada para marcar mais esse episódio histórico, aqui na terra brasilis, tão ou mais trágico que a destruição da cidade romana, pela sua incerteza e imprevisibilidade.

Aquele portal pertencera a então chamada Colônia Santa Isabel — o nome lá esta — um dos vários estabelecimentos construídos na primeira metade do século passado (1930, 1940) em todo o Brasil, para abrigo e isolamento de pessoas vítimas da lepra, hoje hanseníase, num total, segundo o Professor  José Afrânio da Silva em artigo na “Voz Damianense”, de 101 hospitais-colônia. (2)

Trata-se da primeira colônia construída em Minas, no município de Betim, então Capela Nova de Betim, entre 1926 e 1931, as margens do rio Paraopeba, presentemente engolfada por um bairro que se desenvolveu em torno, de nome Citrolândia, e cujas ruínas e prédios remanescentes estão hoje integrados à paisagem urbana. À época, obviamente, ficava isolada de tudo e de todos. Outras unidades foram construídas em Ubá, Bambuí, Três Corações, Sabará, entre outros municípios.

HIC MANEBIMUS OPTIME: “Aqui Ficaremos Bem”. Por que essa frase foi colocada no portal de uma colônia para leprosos? Na versão romana, o sentido é positivo, nobre, o empréstimo da frase pelos senadores apontava para um futuro de superação. Na versão brasileira, a frase soa ambígua, revelando de um lado a erudição de quem a utiliza, não para si, mas para essa população traumatizada pelo sofrimento, compulsoriamente isolada da sociedade, sem nenhuma glória. Não, ali ninguém ficaria bem. Nem os sadios, nem os doentes. Do lado de fora, sim, desde que não houvesse filhos, pais, irmãos, enfim, parentes lá internados. Aqui ficaremos bem, sim, mas do lado de fora. No Rio Grande do Sul, se não me engano em Novo Hamburgo, a frase do portal era “Nós não caminhamos sós”. Em todo o caso, uma pesarosa frase de solidão. Na Colônia Santo Ângelo, Mogi das Cruzes: “Aqui renasce a esperança”. Esta frase não diz a verdade daqueles tempos.

Na primeira metade do século passado o governo do Brasil decidiu recolher os doentes em colônias. A internação era compulsória, e quem teve a doença foi nelas internado, à força se preciso, deixando família, filhos, para trás. Há também relatos de filhos doentes separados das mães. Os filhos sadios privados de pai e mãe eram encaminhados a orfanatos. Reportagem bastante ampla do Estado de Minas, publicada em 03/10/2012, informa que foram cerca de 40.000 crianças isoladas de seus pais. Há relatos de suicídios. (3)

Surpreendi-me com o fato de que, a despeito do tempo, essa história dramática  continua a repercutir. A partir da frase comecei a pesquisar sobre as colônias mineiras, e me deparei, nas redes sociais e em blogs, com pessoas narrando histórias, procurando parentes que estiveram nas colônias, mães e pais em busca de crianças que foram encaminhadas a internatos e hoje são adultos e nunca mais se viram, pessoas que perderam mãe e pai lá dentro, pessoas que, internadas ao 5, 7 anos lá estão até hoje, sem mais vínculos familiares. Li um romance, baseado em fatos reais, cujo autor viveu esse inferno. (4)

Em certa passagem o personagem, transportado num veículo fechado “como os que conduzem criminosos”, viu quando passaram “por um portão em forma de arco, alto e estreito.” É como se eu estivesse vendo o portal, apenas com a ausência da famosa frase. A descrição do “portão” coincide com o que está lá em Betim, nas proximidades de Mário Campos.

Em Sabará existiu o pouco conhecido Sanatório Cristiano Machado, que atendia hansenianos de maior poder aquisitivo. A qualidade do atendimento era outra, comparável a de um hotel cinco estrelas, onde os “hóspedes” dispunham de cassino, salões de baile, sob total anonimato.

Com o advento da cura da lepra, hoje denominada hanseníase, rompeu-se o isolamento, as colônias foram abertas desde 1986, incorporando unidades do SUS e atendendo também a população em geral. Parte dos doentes, ou ex-doentes, puderam integrar-se à suas famílias. Mas há pessoas que continuam nelas habitando, alguns porque construíram vínculos familiares dentro das colônias, outros porque perderam tais vínculos com a família por força de anos de isolamento, que também cunhou em boa parte de seus hóspedes, de um lado, elevado grau de dependência, uma vez que viviam isolados numa espécie de cidade exclusiva, dotada de cinema, salão de festas, campo de futebol, delegacia, cadeia, cemitério, escola, igreja, além das unidades de tratamento, onde trabalhavam na administração, produzindo hortifrutigranjeiros, objetos de uso, obras de construção civil, etc., dependência esta reforçada pelo forte preconceito, que os fazia retornar a cada tentativa de ressocialização.

Tenho parente que se casou com pessoa cuja família tinha parentes vitimados pela hanseníase. Namorei moça bonita ligada à mesma família. Menino ainda, não tinha ideia dos problemas e dos dramas familiares que envolviam a doença. Talvez por isso, nem preconceito. E me lembro desse namoro com enternecimento e afeto. Atravessava a boa distância existente entre a casa em que estava e a dela, por trilha através do pasto — era uma fazenda — à boca da tarde, para voltar já de noite, breu completo, cheio de felicidade. Ficávamos sentadinhos lado a lado, diante dos adultos. A vida seguiu em frente, as férias acabaram, cada qual tomou seu rumo. A moça nunca teve hanseníase. Mas o episódio cheio de afeição, faz-me pensar no sofrimento causado pelas separações entre entes queridos. Voltando ao tema, não se pode olvidar: trata-se uma doença grave, felizmente hoje curável.

Numa viagem virtual via Google localizei o que resta da Colônia Santa Izabel, no bairro Citrolândia, em Betim, MG. Percorri virtualmente ruas, vi as ruínas restantes de algumas edificações, outras estão sendo utilizadas, novas construções foram feitas, e não há mais nenhum isolamento. O bairro respira a normalidade de um bairro periférico das cidades brasileiras, ele mesmo contendo seu centro e sua periferia. Um ou outro paciente vê-se nas ruas. Mas ninguém ali, parece-me, tem mais medo da doença.

Contudo, o preconceito foi enorme no relato de vida dos que ainda moram nas colônias. Mesmo curados, muitos deles não conseguiram retomar as suas atividades nos locais de origem, regressando inapelavelmente à condição de interno.E constato, um pouco desalentado, que aquele pórtico isolado à beira da rodovia MG 155 é, de fato, um monumento em memória das pessoas que viveram e vivem essa tragédia, um monumento praticamente esquecido pela maioria das pessoas, que não tem no seu entorno a proteção e o cuidado que merece.(5) Sua imponência e sua frase em latim evocam, a quem interessar possa, a tragédia que se abateu sobre uma parte de nossa sociedade. A hanseníase, apesar de curável, continua a ser um problema de saúde pública no Brasil.

Notas:

1) Isabel, com esse (s), tal como se vê no portal. Hoje há várias referências, inclusive em documentos municipais, a Izabel, com zê (Z)

2) Voz Damianense: http://vozdamianense.blogspot.com.br

3)Estado de Minas: http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2015/09/21/interna_gerais,690254/conheca-o-drama-de-portadores-de-hanseniase-afastados-dos-filhos.shtml

4) Amilcar Del Chiaro Filho - “Chão de Estrelas” - Minas Editora

5) Li sobre proposta de tombamento do portal. Não sei se foi efetivado. Da última vez que o vi, estava cercado de mato.

Links para documentários:

https://www.youtube.com/watch?v=UoVQUp51e_g

https://www.youtube.com/watch?v=vSkIMX1HCiE

https://www.youtube.com/watch?v=s4dykVAGgpc

https://www.youtube.com/watch?v=xjvpqPW4-fM

https://www.youtube.com/watch?v=mbVM89a_Y2Q

https://www.youtube.com/watch?v=3_RFV99Ff6Y

https://www.youtube.com/watch?v=d027v80tfVg

Palavras

 

Para que descrever o que vejo, se o prazer da palavra consiste em imaginar? Aqui só o silêncio. Mas a imagem ou imagens que vejo sugerem-me alegorias, metáforas sensuais, viagens, passagens, emoções como nuvens, prazeres como o vento que há nessas paragens. A nova estrada em frente a Fazenda do Rótulo sugere um novo caminho. E oferece um pouso ao olhar, e um olhar do alto, oposto ao antigo olhar de dentro, imerso entre as copas.

Uma proposta para um Feliz Natal e um próspero Ano Novo

A cultura e o conhecimento são túneis sem tempo. Nele a gente entra, como num game quase infinito, e, com auxílio indispensável da leitura, vai absorvendo tudo o que a humana saga fez, viveu e escreveu nos diversos planos da atividade humana, ou deixou de fazer (mas está escrito e a espera de um dia vir à luz, se houver tempo, superação e maturidade), enfim, trata-se de uma rede interligada de signos e imagens que se desdobram incessantemente e estimulam o pensamento que é, em última análise, e por consequência de tudo que a natureza produziu em nosso ambiente próximo, o grande diferencial a caracterizar o ser humano.

Pensar, pois, é uma característica humana. Não só esta faculdade nos dá a capacidade de apreender as coisas, os fenômenos, os fatos, os processos, como, e muito principalmente, nos dá a capacidade de jogar com tais dados, ou seja, de pensá-los criticamente, de avaliá-los à luz da experiência pessoal, de confrontá-los com outras vivências, de entender a sua gênese e a razão de ser de sua criação, de submetê-los ao crivo da necessidade e importância para os dias de hoje e para o futuro, ou seja, de fazer o balanço geral buscando estabelecer, por exemplo, qual o sentido de dogmas e crenças, examinar o seu "prazo de validade", se implicam em liberdade e coragem, ou se encobrem o medo e a superstição.

Abdicar da capacidade de pensar significa anular a principal característica humana. Não se trata de  um retorno ao animal (que o ser humano também é), posto que os animais chamados irracionais vêm, curiosamente, programados para executar as tarefas da sobrevivência, e há no nosso arcabouço mental também essas propriedades. Pensar, portanto, o ser humano como animal está longe de ser pejorativo. Somos parte dessa enorme rede de seres vivos habitantes do planeta Terra, que se alimenta dessa mesma rede (a gente se esquece ou não se lembra ou nunca pensou no assunto, de que nos alimentamos de animais e plantas, in natura e/ou processados, e esse conhecimento é mais importante do que parece à primeira vista).

Abdicar, dizia eu, da capacidade de pensar é tornar-se um repetidor automático de pensamentos que outros produziram, um repetidor de repetições cada vez mais incapacitado de questionar, de discordar, de romper, de inovar, de propor outros caminho, visões e práticas. Abdicar da capacidade de pensar criticamente é reduzir, também, a responsabilidade humana com relação a tudo que nos rodeia. E essa responsabilidade se consubstancia numa proposta que nem é original, claro, pois está escrita de maneira implícita em mil e um textos que o gênio humano produziu ao longo do tempo e que se lê por aí, mas se encontra dispersa, ou se apresenta difusa, quando é preciso objetivá-la, torná-la presente no dia a dia de todos, como um sentido imediato para o nosso viver:

é (ou deveria ser) um objetivo imediato do ser humano, em face de sua principal característica, o pensamento, esforçar-se por entender a vida de que faz parte ainda que transitoriamente, buscando e desenvolvendo o conhecimento acerca do funcionamento do planeta em que vive, do sistema solar de que faz parte, da galáxia em que se insere, do cosmos no qual, fantasticamente, nasceu.

Para isto terá que ler, que estudar, para isto terá que fazer funcionar a capacidade de pensar, terá que libertar-se da camisa sutil de força que o aprisiona, rotinas cada vez mais impensadas, rituais de consumo descartáveis, hábitos superficiais que o escravizam e condicionam a auto-estima, para isto terá que assumir as rédeas de sua própria vida, pensando e decidindo mesmo contra forças subliminares que já se entranharam sobretudo nas novas gerações.   

O mundo humano é, sobretudo, virtual. O mundo humano é feito de crenças, de regras, de idéias, de convenções. O mundo humano é produto do pensamento. O mundo humano é, pois, inventado. Claro que foi condicionado, limitado, balizado, pelo mundo material, pela necessidade, pelo meio. Mas, afora a materialidade do mundo, o seu funcionamento se deve às nossas crenças. E tudo isso e todo desenvolvimento se deu em face do pensamento humano. Se chegamos até aqui, podemos avançar mais. Ainda não está pronto, e provavelmente, nunca estará. Mas pode melhorar, e muito...

Para que as idéias dos nossos pensadores de ontem e de hoje, e as nossas próprias idéias se tornem políticas públicas e sejam incorporadas às ações de governo (olhem a questão das mudanças climáticas, por exemplo, mas antes, a questão da educação) é necessário que um número cada vez maior de pessoas professem o pensamento crítico (e criticado), expressem sua vontade e criem consensos, convergências.

Para isso é necessário, voltando ao início, mergulhar nos túneis sem tempo da cultura e do conhecimento que nós, seres humanos produzimos até hoje. Nele a gente entra, eu disse, como num game quase infinito, e a palavra game, que remete a videogame, os joguinhos eletrônicos tornados sofisticadíssimos e que constituem parte da educação (?) contemporânea para a vida tal como se apresenta hoje, eu a usei para tentar comparar com o jogo do pensamento jogado nos túneis da cultura e do conhecimento.

Posso garantir que não há como comparar. Porque aqueles divertem, sim, mas também prendem, estacionam, empobrecem, reduzem. E estes, a par de uma diversão sem escalas, dão autonomia, ampliam o caminho, estimulam e libertam.

Um feliz Natal e um próspero Ano Novo para TODOS, TODOS os habitantes do planeta Terra, sem exceção.     

 

O tempo, o ser e a incompletude

Querida Amiga:

 

Parabéns pra você nesta data! Você está cumprindo uma bela jornada e isso nos enche de orgulho, né? É só uma paradinha no dia 27 pra medir e comemorar.

 

Sim, porque o tempo, segundo a filosofia, é indivisível: é uma "duração" para Bergson; aproxima-se da eternidade para Santo Agostinho; e é o horizonte que pode responder/informar o sentido do ser e da existência humana, para Heidegger. (Fonte: Dossiê sobre O Tempo, Revista Cult). E para nossa própria sensibilidade, é contínuo do nascedouro ao término.

 

Heidegger (texto do professor Alexandre Ferreira, da Unifesp) faz reflexões que me tocam e que, salvo melhor juízo, tenho interpretado dessa ou daquela maneira. Por exemplo, "Mundo não é um lugar no qual as coisas se encontram, mas antes uma totalidade de significação na qual elas adquirem sentido. Mundo é a abertura que doa possibilidades de ser."

 

Ou, "O ser-aí (cada um de nós) é um poder-ser que nunca se completa." O sentido dessa afirmativa eu a percebo há algum tempo, e, suponho, seja essa sensação de incompletude, que na verdade perturba, ou seja, a sensação de que a gente nunca está no lugar definitivo, como se faltasse algo, etc...

 

A colocação do filósofo permitiu-me uma compreensão desse sentimento, e essa compreensão "resolve" a frustração que muitas vezes o acompanha. Ou seja, é natural que nos sintamos incompletos: faz parte da natureza de nosso ser. Antes mesmo de ler alguma coisa desse filósofo eu percebi que viver da expectativa do futuro não tem sentido, não era adequado. Senti-me bem vivendo o presente, a partir do qual descortino o amplo horizonte do futuro: o horizonte que pode responder/informar o sentido do ser e da existência humana. Nunca chegarei lá, mas estarei em mim, sempre incompleto pela própria natureza do ser, para finalmente  completar-me, cessar-me, na inexistência. 

 

Diz o filósofo, pela voz do professor Alexandre: "A possibilidade de uma apropriação autêntica da existência depende do desvelamento de um horizonte que possibilite a compreensão da totalidade do ser-aí, livrando-o do domínio da impessoalidade cotidiana e permitindo a apropriação autêntica das possibilidades de ser na qual já se encontra lançado."

 

É como se me colocasse numa torre de onde pudesse ver todos os quadrantes. À frente, o futuro, à esquerda e à direita e no centro a contemporaneidade (o presente, inclusive as existências paralelas de que não tenho consciência), às costas, o passado. Todos são horizontes observáveis e contínuos desde esse presente em que me encontro e que se move e no qual me movo.

 

Finalmente o tempo, ou a temporalidade (pra desafiar a palavra ou fundir a cuca): "Para Heidegger, diz o professor, o tempo originário não é sucessivo, e sim 'extático-horizontal'. Extático porque projeta o ser-aí para além de si em direção ao mundo. Horizontal porque delineia horizontes para possíveis compreensões do ser...". Veja como as palavras não são capazes de expressar a totalidade do sentimento: Santo Agostinho disse que sabia (sentia) o que era o tempo, mas não conseguia definí-lo, expressá-lo.

 

Ainda: "Ao ser lançado em direção ao futuro, o ser-aí retorna de modo próprio àquilo que ele já era, a uma possibilidade de ser na qual já se encontra lançado, podendo apropriar-se de sua tradição". Apropriar-se de sua tradição significa, a meu ver, tomar consciência dos saberes humanos existentes e trabalhar para descortinar horizontes. Em vez de limitar-se a conhecer formas transitórias do saber, e nelas alienar-se sem a visão de si próprio no todo, e do próprio todo e suas leis.

 

Outra afirmativa relacionada com a anterior: "O ser-aí possui a tendência de fugir de si mesmo e de sua incompletude, refugiando-se na impessoalidade do cotidiano na qual se sente seguro. Esse modo de ser, pelo qual o ser-aí foge de si mesmo, caracteriza o existir impróprio. O ser-aí não pode simplesmente livrar-se das possibilidades de existência que lhe foram transmitidas, porque elas constituem seu próprio ser; cabe a ele apenas apropriar-se ou não daquilo que ele já é."

 

Penso que, para que o ser-aí se aproprie do que já é e de sua tradição é necessário preparo, estudo, aquisição de conhecimento segundo uma direção. Eis aí o entrave dos dias de hoje, quando a grande maioria da humanidade não tem esse preparo, e os que a dirigem estão imbuídos de outras idéias.

 

Diz ainda o articulista sobre as pensamento de Heidegger: "Na antecipação da morte (a consciência da morte, quero crer) , o ser-aí se compreende como puro poder-ser vazado de negatividade, cuja incompletude só acaba junto com a própria existência. A antecipação da morte permite a verdadeira singularização..."E mais: "O futuro é o êxtase temporal mediante o qual o ser-aí se encontra disposto no mundo.

 

Tenho experimentado esse sentimento do qual a maioria de nós tende a fugir. Antecipar a morte significa ter consciência dela e de nossa finitude enquanto indivíduos. Faz parte da compreensão do ser no mundo e no universo.

Embora não tenha poderes para mudar nada, nunca senti tanto — e talvez possa sentir mais ainda — essa singularidade.

 

Ao ser-aí que você singularmente é, lançada no mundo e decididamente dona de suas tradições, farol que ilumina todos os quadrantes, em meio a dor e alegrias desse desdobramento cumulativo de vida e saber, na temporalidade em que nos realizamos, ao ser-aí que você é, o meu abraço e a minha admiração.

 

Ah! Não se canse. E nem leve tudo muito a sério.

 

Bj.

 

Santa

O BRASIL JOVEM ACORDOU!

 

É o que a gente queria, né? Participação. Todos juntos cobrando competência, assumindo responsabilidades, fazendo política, indicando caminhos.

 

A grande maioria pacífica. Deu o recado sem depredação e/ou violência.

 

Um momento lindo. Uma nova revolução brasileira.

 

Fiquei com vontade de ir pra rua.

 

De qualquer forma, meu voto é deles, dos pacíficos e firmes manifestantes que brandiam as mesmas palavras de ordem que a maioria de nós (eu, pelo menos) temos dito e ouvido, sem que fossem ditas a todos por todos. Pois agora foram ditas em alto e bom som.

 

Frango para abate

Frango para abate

 

Tenho dito que na atualidade estamos submetidos a um tratamento semelhante ao que recebe o frango destinado ao abate: desde que nasce come o tempo todo sob luz acesa (não dorme), vitaminado e medicado. Em três meses está pronto para o abate.

 

O nosso destino não é o abate, mas ao contrário, a duração máxima para o máximo rendimento no trabalho e o máximo consumo. Trabalhamos cada vez mais e consumimos tudo o que ganhamos. A medicina dita moderna, com a sua fabulosa indústria farmacêutica, cuida de manter-nos vivos, produtivos e consumidores, completando o ciclo exploratório, dentro dessa espécie moderna de escravidão.

 

Hoje, desde que nascem as pessoas são submetidas à educação consumista: não é educação para o consumo consciente, longe disso, é educação consumista: compre, compre, coma, use, tenha, divirta-se, compare-se, seja top, possua só grife, tenha sucesso, e tome aniversários, e dia dos namorados, da mãe, do pai, da secretária, faça aniversário de criança, encha-a de presentes, a criança não entende nada, mas já vai sendo educada para o consumo, e nos natais o máximo de presentes e toda a comilança. A obesidade está na ordem do dia.

 

Trata-se de VICIAR as pessoas, de condicionar profundamente o hábito das pessoas. O vício é tão forte que a maioria vive endividada, porque cede ao impulso de comprar logo, a prazo, com juros escorchantes. As pessoas estão condicionadas a trocar presentes. Sentem-se na obrigação de dar ou retribuir presentes nos aniversários e datas comemorativas, mesmo que o presenteado não precise de absolutamente nada. Elas se sentem mal se não cumprirem essa convenção.

 

As crianças, como bons aprendizes, já esperam a festa e os presentes de aniversário. Condicionadas como animais de laboratório, inconscientes da manipulação a que se submetem com a ajuda dos próprios pais, têm a sua criatividade restringida por esse mundo de ilusões no interior do qual aprendem a jogar, sem aquisição da consciência crítica que lhes ampliaria a liberdade e autonomia.

 

Esse consumo é exagerado e no mais das vezes inútil. Apenas satisfaz a necessidade de comprar. Comprar para si ou para alguém.  Comprar. De uns tempos para cá, crianças de classe média armazenam uma parafernália de brinquedos que, sintomaticamente, não usam, ou usam muito pouco. Enquanto isso há crianças que nada têm, nada ganham, mas certamente acumulam frustrações com esse estado de coisas.

 

As estratégias publicitárias da comparação, da valorização de quem tem esse ou aquele produto, da desvalorização e até da humilhação de quem não tem, da promessa de felicidade e beleza, chegam às raias do absurdo, são falsas promessas, são valores aparentes, mas são eficazes na catequese sobretudo de crianças e jovens.

 

Cada vez mais a maioria das pessoas se aliena, ignora o planeta e sua natureza, não tem ideia de como são produzidas as coisas que consome, não tem tempo para pensar nas questões que estão por trás de todo esse modo de vida, nem sequer imaginam a existência de outros modos de viver, mais calmos, mais independentes, mais econômicos sob diversos pontos de vista e mais saudáveis, porque isso não é divulgado e/ou debatido, não é compartilhado pelos meios de comunicação.

 

Aliás, os meios de comunicação são poderosíssimas âncoras que colaboram claramente para esse estado de alienação em que nos encontramos. Vide a publicidade dirigida às crianças nos diversos programas infantis, que ainda não encontrou censura por parte da sociedade. Mas há alertas e estudos sobre isso que não interessa nem sequer debater.

 

As pessoas — eu, você, todas e cada uma — precisamos exercitar a crítica e a autocrítica, porque, nas multinacionais, nos conglomerados, nos grandes blocos industriais e seus centros de pesquisa, há pessoas dedicadas a descobrir modos de vender cada vez mais, de VICIAR, de escravizar mais e mais pessoas no consumo, sobretudo a partir das crianças.

 

O termo VICIAR, muito utilizado quando se fala do consumo de drogas, parece estranho aqui. Mas não é. Trata-se mesmo de viciar, ou seja, de condicionar organicamente as pessoas a fazerem do consumo praticamente seu mais importante objetivo na vida. Para obter prazer, as pessoas têm que consumir sempre. A vida toda.

 

A esse respeito li um artigo de Thomaz Wood Jr., colunista da revista CartaCapital, denominado "A arte de vender calorias" (Revista CartaCapital nº 741, 27/03/13) que por sua vez cita o livro de Michael Moss, Salt Sugar Fat: How the food giants hooked us, cuja conclusão é: "...houve um esforço consciente em laboratórios de pesquisa, reuniões de marketing e nos corredores dos supermercados para viciar (grifo meu) os consumidores em alimentos convenientes e baratos".

 

Relata o colunista: "Moss conta como, no fim da década de 1990, um grupo bem-intencionado de altos executivos de grandes empresas tentou abrir os olhos de seus pares para a necessidade de produzir alimentos mais saudáveis e assim evitar o destino da vilificada indústrias do tabaco. A iniciativa, contudo, esbarrou na ganância do grupo. Um dos participantes apontou: 'Nós não vamos estragar as joias da empresa só porque uns caras de jaleco branco estão preocupados com a obesidade".

 

Outro trecho contundente: "Moss conta também os grandes feitos de Howard Moskowitz, gênio da matemática e da psicologia que voltou sua competência científica para a nobre tarefa

de 'otimizar' pizzas, sopas, molhos para salada e picles. O sábio desenvolveu habilidades capazes de, por meio de experimentos e tratamento de dados, definir a mais perfeita versão de cada produto, aquela capaz de maximizar o prazer do consumidor, tornar o produto viciante e encher os bolsos do fabricante. A preocupação com os efeitos sobre a saúde, naturalmente, não entra nos cálculos".

 

Mais um trecho da coluna de Wood Jr., indispensável para a crítica dos leitores, pela gravidade do tema: "O autor (do livro) narra também como os fabricantes de lanches rápidos souberam explorar a tendência infantil para o consumo de guloseimas cheias de açúcar e vazias de nutrientes. Estratégia escolhida (e premiada): bombardear a audiência de desenhos animados com propagandas que carregavam mensagens de forte apelo".

 

Tudo isso está aí, diante de nossos narizes. A regra nas escolas de Administração e Marketing somada à cultura nas empresas, comenta o colunista, é: "descubram o que o consumidor quer comprar e vendam em grandes quantidades. Se ingredientes caros puderem ser substituídos por baratos, disfarçados em embalagens atraentes, ótimo. E não se esqueçam de contratar as melhores agências de propaganda e promover os produtos especialmente para as crianças, o público de hoje e de amanhã".

 

Para fechar esse texto, volto à frase de parágrafos acima: "A preocupação com os efeitos sobre a saúde, naturalmente não entra nos cálculos".

 

Mas, entra, sim. Nos cálculos da indústria farmacêutica, fechando o esquema: trabalho incessante + consumo incessante + drogas e mais drogas para o controle. Uma reportagem de The Economist, revista britânica, cujo tema é a obesidade mundial, referindo-se às possíveis alternativas, afirma, num subtítulo: "Um desafio para indústria farmacêutica".

 

Ou seja, em vez de atacar a raiz do problema, propõe o que de fato é o fechamento do ciclo exploratório: trabalho = consumo objetos + consumo de guloseimas + consumo de drogas.

 

Apoiados na economia de escala dos tempos modernos, empresas, bancos, mídia e agências de publicidade controlam governos e parlamentos (fragilizadas representações da sociedade civil), enfraquecendo-lhes as funções de regulamentação e proteção de pessoas e ambientes, condicionando e mesmo gerindo o sistema educacional, influindo decisivamente nos processos eleitorais e assim por diante.

 

O que fazer? Um primeiro passo, pelo primarismo de que se reveste, é: renovar o Congresso Nacional. Precisamos melhorar a nossa representação. E, claro, participar mais, propondo mudanças. A única arma que usamos com frequência é o voto. Tratemos de valorizá-lo. Se o eleitorado se interessar e se organizar para fazer valer o seu voto, a coisa pode mudar. No mundo inteiro.

 

 

Nao Matarás

 

Vamos começar por uma pequena radicalidade, por sinal, uma radicalidade bíblica: ninguém mata. Pronto. Ninguém mata ninguém. Não matarás.

Como seria?

Aquele peru ia ficar aliviado...

Mas, eu tô falando de gente:

 

Foras da lei não matariam as vítimas.

Soldados não matariam inimigos.

Policiais não matariam foras da lei.

Homens (meu Deus como matam) não matariam mulheres. E o inverso, que nesse caso é raro.

Enfim, ninguém mata ninguém.

 

Todo mundo tem medo da morte.

E tem medo de ser morto.

Não matarás: isso aliviaria a barra?

 

Como seria isso? A partir de tal data um decreto. Ninguém mata ninguém.

 

O fora da lei apontava a arma, ninguém levava a sério. O policial apontava a arma, o fora da lei saía andando.

O que faria o fora da lei para fazer a vítima entregar-lhe o dinheiro, a bolsa, o carro?

Podia bater. Ah!, dava um coque. Ou uma cacetada. Então, para assaltar, o assaltante ameaçava a vítima com a coronha da arma, com um cacete, etc.. Para prender o meliante, o policial ameaçava dar uma cacetetada nele, e assim por diante.

Bom, mas esse negócio de cacetada também dói, é humilhante e às vezes machuca muito. E pode até matar. Melhor não.

 

Vamos voltar atrás. Ninguém mata, ninguém dá cacetada em ninguém. Nem cascudo, nem coque, nem pescoção, muito menos telefone. Pau-de-arara, mas nem pensar!

 

O "assaltante" (agora com aspas porque ele não é mais violento) teria que convencer, na lábia, a vítima, ou as vítimas.

— Saca, ò meu, tô carente de uma grana... sou novo, mas não tive base...

— Por que cê não trabalha, ò cara...

— Tô precisano, meu, mas não sei fazê nada...

—  Aprende...

— Gasta tempo, tio, e se eu não aparecê com a grana, perco o tênis... Oferta, sabe como é... O tênis foi feito pra mim, tio... Tava escrito: "esse é pra você!"

— Bão... Vou lhe dar meio par, tá bem? "Assalta" aquela velhinha ali, ó. Quem sabe ela lhe dá a outra metade. O "assaltante" ia acabar perdendo a paciência e dando um cascudo no folgado... Mas não pode! Olha, vai perder as aspas...

O "assaltante" argumenta:

— Cê qué que eu saia por aí mendigando, tio? Sabe o que acontece? As pessoas dizem:

— Só dou pra comida...

— Dinheiro eu não dou... Vai direto tomar uma cana... Viu o jeito dele? Se não for pra coisa pior. Fedorento...

— Aquele ali tem cara de tarado, que susto!... Não, tio, mendigar não dá. Tem gente que olha pra gente como se a gente fosse um lixo... A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, como dizia os Titã, né tio...

 

Não matarás. Quando fossem várias as "vítimas", estas, para não decepcionar o "assaltante", fariam uma vaquinha e dariam para ele. E se ele continuasse a "assaltar", então as "vítimas" convidavam-no para um café com pão, e abriam logo a casa, a coragem e o coração de cada qual, dizendo:

— Você terá casa, comida, direitos e obrigações. E terá que estudar e trabalhar. De acordo?

Será que o cara ainda ia torcer o nariz? Será que você ia torcer o nariz se vivesse essa história?

Será que daria certo? E todo mundo ali, aquele calor humano, incentivando o "assaltante" a se transformar em cidadão.

Opa! Onde é que estou? Ah! Voltemos ao real.

 

Quer saber? Fica como está.

Mas, cuidado para não matar.Lembre-se: não matarás. É um mandamento fantástico. Seria muito bom saber que ninguém nos dará um tiro ou uma paulada, seja lá por que motivo for. Esse mandamento sozinho talvez não faça o efeito desejado. Acho que vamos precisar de um outro: "Ama a teu próximo como a ti mesmo".

Bão, mas aí é querer demais! Um tanto piegas. Fora do real...

 

Então, me lembro, e vou concluindo, desapontado que: com mil alfinetes, em parte já é assim. "Não matarás" saiu da Bíblia e passou a ser lei humana. E mesmo assim é uma matança que não acaba nunca. Desde priscas e remotas eras.

Por quê? Alguém ousa tentar responder? A gente sai ou não sai dessa?

 

De Morubixabas e Miúdos

Há uma massa enorme de grana girando em organizações (INSS, SUS) cuja finalidade é atender à grande maioria das pessoas (à massa miúda, no jargão macarrônico de muita gente boa), e cuja administração não funciona bem, sob controle de "morubixabas" (no dicionário, uso informal, indivíduos que exercem função de chefia; chefe, guia).

Estes se originam de entre os miúdos, mas, num estranho mimetismo, imitam seres superiores com os quais tentam se confundir, com o resultado de que se tem notícia ou se experimenta pessoalmente: as coisas funcionam mal ou deixam muito a desejar.

E por que funcionam mal essas coisas que deveriam ser bem administradas por boa parte dos miúdos que são a maioria? Será que os miúdos sofrem de um processo de inconsciência, um torpor de formação, um ranço colonial e escravocrata, uma subjugação histórica que os (nos) faz "correr e concorrer/pensar estereótipo/não poder inventar/não poder ser, enfim/ou optar/apenas, sensabor/ se acorrentar e ir"?

Já disse que a administração pública brasileira carece de gerenciamento, portanto carece de gerentes. Porque não é possível que não possamos produzir com os recursos disponíveis uma prestação de serviços muito mais eficiente.

A representação política dos miúdos não existe. Ou por outra, os miúdos não existem politicamente. Isso já é um sintoma de carência. Não se consegue gerir um organismo dotado de pessoas sem fazer política, sem congregar esforços, sem buscar apoios e complementos, sem estimular soluções e iniciativas.

Pois gerenciar é isso: envolver-se completamente nos problemas, buscar o espírito de equipe, o compartilhamento, a autonomia relativa, a corresponsabilidade, a coordenação das ações.

E para isso precisamos treinar gerentes, tanto sob aspecto técnico, mas também moral e cívico. Há carência de ambas as coisas. O cidadão tem que saber o porquê de estar ali. Tem de ter a consciência de que sua missão tem um aspecto fundamental: zelar pelo patrimônio público, ou seja, patrimônio que é de todos.

Sim, porque, por exemplo, ser funcionário público, portanto, servidor público, ou ainda, servidor do povo, requer todo um preparo que inclui essa consciência. A consciência de que o cidadão servidor público tem a obrigação de zelar pelo patrimônio público e seu correto funcionamento, de acordo com as leis em vigor.

Gerenciar também é veicular clamores tais como o aperfeiçoamento da legislação visando desburocratizar os regulamentos, hoje eivados de medidas "preventivas" que oneram a própria administração, os cidadãos e as empresas.

Ainda haveremos de andar um bocado antes de chegarmos a um nível mínimo de responsabilidade, aplicação, denodo, na administração da coisa pública e, é bom que se diga, da administração privada também.

"O Que Sei de Lula", livro de José Nêumanne Pint0 (Topbooks - 2011) - Comentário

 O livro é um passeio na recente história do Brasil. O escritor, que alterna as funções de analista e juiz, preocupa-se em dessacralizar o mito Lula, fazendo-o mais racional do que qualquer um de nós pode ser.

 O analista levanta hipóteses plausíveis sobre a trajetória petista, por exemplo, quando detecta, sobretudo nos primeiros tempos, o "efeito pureza" resultante do isolamento do partido em relação às outras forças políticas, e do próprio líder desde que se tornara o mais importante sindicalista brasileiro.

 Para mim, no entanto, o isolamento do partido teve origem no sectarismo antirreformista que acompanhou as organizações de esquerda ao menos no Brasil, enquanto o isolamento de Lula provinha do foco que punha na defesa do direito de greve e de melhores salários e condições de trabalho, até como estratégia para não ser jogado na vala comum dos chamados subversivos, o que no Brasil da época era um trágico padrão impingido aos opositores.

Teria havido convergência entre o líder sindical e o partido, evidentemente não só por este aspecto, mas a "pureza" de cada qual, segundo as circunstâncias, favorecia a ideia de que algo novo se projetava. Sem embargo das análises geopolíticas, estratégicas, conjunturais, éticas, morais, e das projeções de toda a ordem a subsidiar as ações presentes e futuras.

Mas ao analista escapa os movimentos macro, justamente por causa de sua visada judicante. Se Obama foi um marco para os americanos do norte, por tudo o que a ascensão de um negro à presidência (com ideias novas) daquele país possa representar, Lula representa para o Brasil a quebra da hegemonia dos bem nascidos em favor da inclusão simbólica, material e política, (esta até certo ponto) da grande maioria da massa inculta dos brasileiros, com a mesma profunda formação cultural daqueles, e com os sinais respectivos de sua posição no concerto socioeconômico e educacional: de um lado, preconceito; do outro, ressentimento.

O pano de fundo cultural: autoritarismo, arbitrariedade, fisiologismo e corrupção, tanto quanto apropriação do público pelo privado, seculares na nossa formação histórica.

Ao analista não escapa a divisão do Brasil, mas, o julgador, encarapitado no moralismo ético beletrista, obviamente ideológico (porque disto ninguém escapa, nem este que vos escreve, nem William Waack), inverte a equação: em vez de incluir a maioria do povo numa nação antes fraturada entre a elite relativamente culta e um povo alienado, Lula teria provocado a divisão do Brasil entre ricos que pensam e pobres incapazes de pensar.

Ora, o Brasil respira e dissimula essa divisão secular, subproduto da colônia e da escravidão que, mercê do incômodo jamais encarado de parte a parte, exceto aqui ou ali com prontas reprimendas, jamais foi objeto de decisiva preocupação, de políticas radicais (em face do desafio) para erradicação do analfabetismo, da mitigação da pobreza e da miséria, tensionados dramaticamente pelo espetacular e brutal êxodo rural, que o estado, por seus segmentos sucessórios, militares, ditatoriais ou relativamente democráticos fez agravar com legislações ditas modernizantes, desacompanhadas de quaisquer planejamentos.

Um dos mais retumbantes exemplos da indiferença para com as grandes populações brasileiras foi a abolição da escravatura, sem uma linha sequer relacionada com quaisquer orientações, encaminhamentos, regulamentações que pudessem dar aos libertos uma perspectiva de reinserção socioeconômica minimamente organizada. Aliás, a questão das cotas, assunto não abordado no livro, revela o mesmo viés com que o pensamento dominante vê e abstrai a sociedade brasileira: para estes, éramos um país pacificamente multirracial, sem preconceito até que os afrodescendentes reclamassem de sua posição para lá de subalterna (e também secular) na base da pirâmide socioeconômico educacional. Como por encanto, tornamo-nos um país dividido entre pretos e mestiços de um lado, e brancos de outro.

Sobre essa questão, do meu ponto de vista, mais que as medidas compensatórias, o debate que se seguiu foi extremamente frutífero, provocando uma tomada de consciência de todos quanto à naturalização do preconceito, as formas veladas de seu exercício, contribuindo para o exorcismo paulatino desse fantasma também secular.

O uso do cachimbo faz a boca torta, ditado que se aplica a toda a sociedade, pois o nosso "modelo" de convivência plasmado no tempo do Brasil colônia tinha, grosso modo, um bloco minoritário de gestores coloniais e agregados de um lado e o povão subalterno e escravizado de outro. A paz racial e social que nos fez, a certa altura, pespegar no brasileiro médio o epíteto de homem cordial, velava em suas entranhas tensões que sempre emergiam aqui ou ali, e se intensificaram com as transformações que o mundo conheceu, sobretudo no século XX.

Tudo isso é perfeitamente normal na evolução das sociedades. Afinal, quem dizia que nós éramos um povo ajustado social e racialmente eram os bem pensantes. O| povo, ora, o povo não dizia nada, não sabia dizer ou não se fazia ouvir, de fato não se representava, com raríssimas exceções. Justamente um dos problemas decorrentes desse "modelo" é que as decisões não contemplam a maioria, posto que a maioria jazia e ainda jaz, hoje em menor escala, numa alienação não digo conveniente, mas acomodada.

Ao contrário do que prega o livro de Nêumanne e sua visão divisionista, equivocada pelo julgamento que se sobrepõe à visão do analista, houve, sim, uma inclusão e não uma divisão, com a assunção ao poder de Lula, do PT e aliados, da enorme população até então sem candidato com o qual se identificasse, não apenas pelo programa e suas promessas, mas pela trajetória e origem. Pela primeira vez o povo pobre e inculto viu-se representado na história política do Brasil, e isso não é pouco.

Eu diria que nossa experiência recente indica uma aproximação de atores antes decididamente separados no espectro político, econômico e social brasileiro: os políticos, empresários, tecnocratas e altos funcionários de um lado; os trabalhadores, funcionários em geral, os pequenos empresários e o povo de outro. O único segmento que se mantém fechado a tal movimento é o das forças armadas.

Ao contrário do autor, que viu a divisão do Brasil entre ricos e pobres, pensantes e não pensantes, eu vejo na prática a inclusão de novos atores à vida política, econômica e institucional do país, não sem provocar atritos e rupturas, até porque, o presidente aprendeu nas lutas sindicais, enquanto a esquerda já o professava, e é mandamento em todas as circunstâncias que envolvem necessidade de mudança: de graça nada acontece.

No que diz respeito aos métodos destacados pelo autor na sua versão judicante, e sem a intenção de absolver quem quer que seja por eventuais crimes cometidos, pergunto em que as ações, contrafações, maquinações desses novos atores diferem das ações, contrafações e maquinações de amplos setores da vida política e institucional do país ao longo do tempo republicano, para ficarmos nesse período? Talvez na ingenuidade com que expõem as próprias mazelas e se expõem ao julgamento do discreto, porém não menos fisiológico adversário.

Por que as instituições brasileiras toleraram um presidente cujo partido (também) apropriou-se de dinheiro público para o financiamento de campanha? Essa pergunta que não quer calar basta para me fazer crer que precisamos nos conhecer melhor. Estudar sem dissimulações a nossa formação histórica, as virtudes e os defeitos de nosso caráter. E, sem conspirações, repactuar paulatina e pacientemente — como tem sido feito, apesar do choro e do ranger de dentes — um modus vivendi que nos conduza a um futuro melhor.

O próprio autor, na sua porção analista, corrobora indiretamente a tese, ao criticar com veemência os momentos em que os adversários de Lula, surpreendidos na ilegalidade, silenciaram quando, mesmo tendo de cortar na própria carne, deveriam honrar os princípios pelos quais se dizem responsáveis.

O Presidente Obama foi importante para os EEUU, mas a sua ascensão, ou a ascensão de um negro ao poder, era previsível, em face da presença cada vez maior dos afrodescendentes na vida social, econômica e política dos americanos do norte. A ascensão de Lula, não. As instituições, o modo como tratamos a maioria, o abismo socioeconômico educacional do qual ainda não nos libertamos, são circunstâncias sob as quais não temos como projetar tal situação, haja vista a grave crise de confiança (especialmente da elite financeira e empresarial) que se seguiu à eleição de Lula.

Ela, a ascensão de Lula,  nasce do mesmo acaso que faz aqui e ali, no mundo, os "self made man or woman", muitos dos quais são liquidados incipientemente quando as circunstâncias lhes são radicalmente adversas. No caso do presidente Lula, o acaso e as circunstâncias contribuíram para que ele desempenhasse esse papel, de aproximar os dois "Brasis" para que se conheçam, se respeitem e se integrem, eliminando a esquizofrenia de que padece o país real, sob o véu de abstrações ufanistas, e/ou pretensiosas, e/ou convenientes.

Se tivermos juízo e não conspirarmos pela destruição do "outro" como se fora o inimigo (vide a cegueira da cúpula armada), se tivermos paciência e convicção para insistir na aplicação da lei (às vezes com o sacrifício da própria vida, vide procuradores tombados, líderes rurais e outros), se lutarmos pela transparência na esfera pública (e privada, é óbvio) faremos avançar o Brasil real. Não é fácil, jamais será fácil, mas não há outro caminho, ou melhor, há. Mas, por ele, jamais chegaremos a ser uma nação.

Que Ideias (e Forças) Governam o Mundo Hoje?


Que ideias (e forças) governam o mundo hoje?

Luiz Gonzaga Belluzzo, professor, economista e palmeirense (vice-lanterna do brasileirão 2012, hoje 18/09), escreveu em sua coluna na revista Carta-Capital nº 714, de 12/09/2012, alguma coisa sobre o pensamento de dois autores na área econômica, Karl Mannheim e Charles Wright Mills, o primeiro falecido em 1947 (55 anos: eu ia nascer no ano seguinte) e o segundo, em 1962 (46 anos): naquele tempo (meio do século passado) ainda se morria relativamente novo.

Escreveu o professor Belluzo sobre e citado Mannheim:

Mannheim acolhe a ideia de Ortega y Gasset (filósofo espanhol) sobre o homem educado: aquele que se distingue pelo conhecimento das filosofias que regem sua época. Isso deveria ser complementado, diz ele, por um conhecimento dos fatos que permitam a todos formar ideias sólidas acerca do lugar do homem na natureza e na sociedade. Cabe à educação examinar os problemas de nossa sociedade, especialmente aqueles relacionados com a vida democrática. Uma vez tratadas essas questões fundamentais para o homem moderno (não gosto de englobar o ser humano na palavra "homem", mas...), o estudante vai encontrar o lugar adequado para a boa formação profissional. (Os grifos são do blog).

Comentário:

As palavras citadas ecoam em muitos livros e bibliotecas.

Raras são as escolas, sobretudo de segundo e terceiro graus, que apresentam ao aluno o mundo em que vivemos, sua natureza e sua interface conosco e com os demais seres vivos.

Ou seja, para que tenhamos um mundo melhor, caracterizado pelo conhecimento, pelo autoconhecimento e pelo exercício da cidadania, é necessário que todas as pessoas sejam educadas, diria até o terceiro grau para indicar uma ideia de relativo aprofundamento. No plano individual, não importa o modo como se estuda; necessário é estudar, conhecer, ler, pensar criticamente. No plano coletivo as escolas têm de mudar bastante. Na minha opinião, o ensino hoje tem de ser dinâmico, multidisciplinar, e calcado nas duas ferramentas essenciais do saber: a línguagem e a matemática.

Conhecer a natureza em sentido amplo, os seres vivos, o planeta e seu funcionamento, o sistema solar e o universo conhecido; conhecer a si mesmo e sociedade em que se encaixa, o modo como nos organizamos, como nos elegemos, como produzimos, como pensamos, tudo isso para poder pensar e agir sobre essa realidade a partir do seu lugar na sociedade.

Depois, então, a questão profissional, o que fazer, onde, e os porquês.

Note-se que há uma ordem: primeiro o conhecimento de si, da natureza, da sociedade; depois o aprendizado profissional. Claro que essa ordem não implica rigidez.

Continuando com o professor Belluzzo, discorrendo sobre Mills:

Ele (Mills) não escondia sua indignação com o projeto de uma ciência social cujos propósitos são a previsão e o controle do comportamento humano. Falar com tanto desembaraço sobre previsão e controle é, observava, "adotar a perspectiva do burocrata para quem o mundo é um objeto a ser manipulado". (Grifos do blog).

E pondera o professor Belluzzo: Mills era um típico liberal norte-americano do imediato pós-guerra, formado no clima progressista e esperançoso do New Deal.

(Comentário entre aspas do blogueiro: Parece-me que os pensadores dessa época (anos 30, 40, 50), marxistas ou não, têm no seu modo de pensar uma esperança quase ufanista no futuro do mundo, reflexo de imensas transformações em todos os planos da vida humana, incluindo-se, naturalmente, os conflitos mundiais.)

De volta ao professor Belluzzo, sobre Mills:

 Suas profecias sobre a trajetória da ciência e do conhecimento da sociedade não só se cumpriram como foram ultrapassadas pela capitulação humilhante das ciências sociais diante dos procedimentos pseudocientíficos da economia.

Comentando: aqui o texto é pra lá de claro e nós todos fomos vítimas desse pseudocientificismo. Não é que os administradores do chamado capitalismo financeiro (que reina no mundo hoje) com sua engenharia caça-fortunas de otários manipulados que somos todos, logrou jogar o mundo numa enorme crise (já que de crises malsãs vive o sistema), em troca do enriquecimento pessoal de meia-dúzia?

Se o leitor quiser incluir depoimentos, assista o documentário do americano Michael Moore intitulado "Capitalismo: Uma História de Amor". Talvez esteja disponível no Youtube.

Voltando ao professor Belluzzo e as projeções do pensador Mills:

Ele se dispôs a investigar dois pontos fundamentais: primeiro, as mudanças na organização econômica capitalista e nas grandes organizações sociais (inclusive nos aparelhos de produção do "saber"). Essas transformações dariam origem a uma concentração sem precedentes do poder e aumentariam a distância entre a elite e as massas.

Segundo, as perspectivas mentais e ideológicas seriam criadas por uma sistema de educação, de informação e de comunicações cada vez mais concentrado e centralizado.  Mills não poderia, é claro, (há setenta anos atrás, digo eu) imaginar a usurpação quase completa da liberdade de opinião e de informação [....] executada de forma implacável pelos moguls (*) da mídia, transformada, fora as exceções de praxe (por enquanto, digo eu), em arma de desinformação e propaganda de interesses.

(*) Mogul: magnata; pessoa influente; barão; grande homem de negócios, etc.

Comentando: eu diria que ontem eram peças fundamentais na educação das pessoas, e portanto na transmissão de valores, a família e a escola, esta última para quem tinha acesso, claro. Hoje é a TV que (des)educa; ou mais abrangentemente: a mídia).

E arremata o professor Belluzzo: Nas condições de segmentação, especialização e burocratização do saber, num ambiente de brutal concentração do poder de informar e de definir temas para discussão, é impossível cumprir a promessa moral e intelectual das ciências sociais, de que a liberdade e a razão continuarão como valores aceitos e serão usados de forma séria.

Comentário final:

Essas reflexões não estão apenas nos livros e na coluna dos autores citados. Estão em todas as bibliotecas do planeta, há muitos séculos e vêm se desdobrando em novos achados e novas reflexões.

Acho que posso sintetizar a minha perplexidade com uma pergunta: qual o caminho a seguir?

Não a volta ao passado, ao rádio de válvulas, ao telefone discado de linhas, mas eu tenho uma lavadora de roupas que funciona há 40 anos. Quantas máquinas eu teria comprado se essa fosse descartável como muita coisa hoje?

E a ideia utópica, em pleno vapor, de um carro pra cada um? Vai dar pra fazer? Até quando?

Não uma volta ao passado, e sim, uma ida, uma ascensão ao pódio da democracia, uma ideia de participação responsável, de divisão de poderes;

Como fazer para que os governos e congressos ouçam e façam o que a maioria das pessoas querem? Bem... E as pessoas estariam preparadas para coparticipar? Que bens deveríamos garantir primeiro?

Como participar das decisões políticas nos congressos e nos executivos?

Como enquadrar o poder dos donos do capital financeiro? Como impedir que, através do dinheiro, eles comprem a consciência dos parlamentares e políticos do mundo inteiro?

Como impedir que o capital, o dinheiro, a economia, a produção e o consumo desenfreados sejam a máquina que nos impulsiona e escraviza? Mais carros nas ruas ou mais moradias com tratamento de água, tratamento de esgoto, tratamento (e redução) do lixo?

Transporte coletivo ou transporte individual?

Por que temos que bater recordes a cada ano, quando estamos precisando produzir menos quinquilharias e desviar o trabalho e a tecnologia para proteger córregos, rios, lagoas, florestas? Para que bater recordes sobre recordes na produção de veículos? Quais as consequências?

Por que não protegemos as nossas crianças de uma vez por todas, dando-lhes acolhimento, educação, cidadania? Por que não batemos recordes de proteção à criança?

O mundo precisa ser essa bagunça administrativa? Esse corre-corre atrás da grana? Essa insegurança permanente?

Precisamos abrir mão do prazer e da alegria para governar o mundo?

Só há um jeito de fazer isso?

Por que ficamos, cada um de nós, cuidando de nossas coisas, ambições e projetos pessoais (os que podemos) e não percebemos a teia que se forma sobre as nossas vidas, ações, liberdades, pensamentos?

Somos, por acaso, escravos modernos de uma sutil e poderosa ordem social?

 

 

 

 

"Nosso Lar"


Assisti ao filme "Nosso Lar" e gostei. É um filme calmo, de belas e amplas paisagens, com um elenco estelar. Foi estranho colocar-me como morador naquela cidade e dessa perspectiva ver a Terra como um estágio, como um lugar para onde se vai estudar e aprender. Morrer seria apenas uma maneira de retornar à casa, à sede, de onde, aliás, jamais deveria ter saído. A vida ali era quase perfeita e todos se amparavam mutuamente.

Enquanto assistia, o telefone tocou. O telefone alternativo que temos, que quase a gente não usa, ou simplesmente não usa. Pois, tocou. Agora me lembro de que esse telefone havia tocado à tardinha, eu atendi, era a cobrar, aguardei, silêncio. Tocou de novo, atendi, a cobrar, diante do silêncio e lembrando-me de que poderia ser alguém de um telefone público, sugeri: aperte uma tecla à direita, senão você não consegue falar, ou melhor, eu não ouço a sua voz.

Ouvi um beeeep! Um ruído típico de quando se aperta teclas telefônicas. Silêncio. Alô? Alô? Nada. Desisti. Pois, quando assistia ao filme, já de noite, o telefone voltou a tocar. Atendi e, desta feita, não era a cobrar. Silêncio. Alô? Uma voz delicada de criança, talvez uma menina, disse: O Luiz tá aí?

Assistindo a um filme dessa natureza a gente fica sensibilizado. E ainda acontece uma coisa assim. Fiquei momentaneamente embaraçado. Afinal, meu nome é Luiz. Coincidência? Não é impossível. Mas, ela poderia ter olhado no catálogo. Falei então: Meu nome é Luiz. E fui emendando, mas você quer falar com outro Luiz, não é? É, disse ela. Pois você errou o telefone, eu lhe disse. Qual o número que você discou? Vou conferir com o meu. Talvez haja um erro. A vozinha não respondeu, continuou em silêncio, demorou, desliguei.

Voltei a assistir ao filme. O telefone tocou mais uma vez. Atendi e fui logo dizendo: oi, pode falar......... Ela: Tem Emília aí? Eu: não, não tem. Você se enganou mesmo....... Ela: desculpe. Tchau. Tchau, respondi, novamente surpreendido, desta vez pelo modo educado da menina. Retornei ao filme. O telefone tocou novamente, mas eu não atendi. O filme chegou ao fim. Embora o tema seja muito conhecido, o filme cria uma atmosfera de sonho, de conforto, de amparo: de repente você se vê amparado, atendido, auscultado, ouvido sem pressa, com toda a dedicação, num ambiente de paz e tranquilidade. Pra quem ainda está no planeta Terra, convenhamos, é um choque.    

O que me deu vontade de perguntar é: para que sair de um lugar perfeito e viver a vida que se tem aqui na Terra, se lá, em "Nosso Lar", a civilização é celestial? Eu conheço parte das respostas. E me ocorre pensar: "Nosso Lar" é aqui. É só ter olhos de ver, o que é difícil. E a menina, com a sua voz delicada, do outro lado da linha e do mistério, vai ligar de novo?



 

Cartas à minha Amiga

Querida Amiga;

Ainda outro dia falava com você sobre assunto correlato. Da virtualidade das relações. Sei que meu nome está na rede, e o de quase todo mundo também. Imaginei que, se houver uma ditadura, e tudo indica que ela poderá ser mundial, global — calma, não é pra amanhã, talvez para depois de amanhã — eu, e todas as pessoas, poderão ser facilmente localizadas, quase como o eram no livro "1984".

Outro aspecto no qual venho pensando, e que está no texto que vc. mandou, e que abrange esta pergunta: que consequências já poderíamos perceber no mundo globalizado, dominado por uma mídia sobretudo televisiva empresarial que tomou as rédeas da educação? Da transmissão de valores? Da difusão de regras de conduta? E ainda há as abissais diferenças sócio-econômico-culturais e nos separar em castas sócio-econômico-culturais.

Esse assunto fascinante e terrivelmente ausente na grande e devoradora mídia tradicional sobrevive em guetos relativamente controlados mas ainda pluridimensionais : na TV a cabo, o canal Brasil, por exemplo, graças aos artistas, cineastas, pensadores, escritores, poetas que abrem espaço às múltiplas idéias e à crítica; muito mais sobrevive nos cantos, nos grupos que se interpenetram no grande tecido social. Mas não está nos holofotes. A discussão se empobrece enormemente quando se fala de TV Global. Há um império impedindo a evolução humana.

É assunto para não esquecer. Bj. pra você.

 

Ser Jovem Hoje (I)

Joel Birman, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da UFRJ, em seu artigo "Ser ou não ser", publicado na revista Cult, na edição nº. 157, de maio de 2011, (www.revistacult.com.br) faz uma interessante análise da posição do jovem na sociedade de hoje. Abaixo, alguns trechos do texto, seguidos de comentários livres deste blogueiro.

 

"Na atualidade, a imagem da juventude está marcada ao mesmo tempo pela ambiguidade e pela incerteza. Digo ambiguidade pois se, de um lado, a juventude é sempre exaltada na contemporaneidade, cantada que é em prosa e verso pelas potencialidades existenciais que condensaria, por outro a condição jovem caracteriza-se por sua posição de suspensão no espaço social, que se materializa pela ausência de seu reconhecimento social e simbólico." (Os trechos destacados são do blog)

 

Comentário: De fato, os jovens não estão vinculados objetivamente a nenhum projeto, não podem responder pelos seus atos, têm cerceado o direito ao trabalho e à assunção de responsabilidades, são tratados como crianças e, não obstante, recebem cobrança como se adultos fossem.

 

O imaginário adulto cultiva a idéia de que, mais cedo ou mais tarde, os jovens atravessarão esse período e se definirão como cidadãos prestantes e responsáveis.

 

Por outro lado, se o jovem não tem posição definida na sociedade, esta mesma sociedade o submete, desde criança, à publicidade maciça e constante e o utiliza para constranger os pais na direção do consumo como um valor social.

 

Voltando ao texto do Birman:

 

"Nesse contexto (da família tradicional) a adolescência foi delimitada como o tempo de passagem entre infância e a idade adulta, na qual o jovem podia empreender experiências nos registros do amor e das escolhas profissionais, até que pudesse se inserir no mercado de trabalho e se casar..."

 

"Desde os anos 1980, no entanto, essa figuração da adolescência entrou em franco processo de desconstrução, por diversas razões. Antes de mais nada, pela revolução feminista dos anos 1960 e 70, com a qual as mulheres foram em busca de outras formas sociais de existência, além da condição materna. [...] Com efeito, as mulheres como mães eram as peças fundamentais para fazer funcionar esse modelo familiar (família tradicional)..."

 

Comentário: A entrada das mulheres no mercado de trabalho, os processos de substituição de mão de obra por novas tecnologias, a extinção e mudança do perfil dos mercados com a globalização, a ampliação do desemprego estrutural, o aumento e a concentração populacional nas cidades, tiveram como principais vítimas os mais velhos e os mais jovens: estes passaram a se inserir no mercado de trabalho mais tardiamente, enquanto os mais velhos eram substituídos pelos mais jovens.

 

Simultaneamente o velho patriarcado perdeu força, a autoridade antes nele centralizada diluiu-se, fragmentou-se, descentralizou-se para formas ambíguas e ainda não definidas, trazendo, por outro lado uma sensação de desordem, de falta de coordenação e/ou referência.

 

Continua Joel Birman:

 

"Foi em consequência desse processo que o tempo de duração da adolescência se alongou bastante, ficando os jovens fora do espaço social formal, lançados perigosamente numa terra de ninguém. Assim, graças à ausência de inserção no mercado de trabalho (espaço social formal adulto), a juventude foi destituída de reconhecimento social e simbólico..."

 

Comentário: Nascido em 1948, devo dizer que por volta de 1962, 63, com quinze anos, iniciei minha vida de trabalho. Havia, portanto, naquela época, oferta de emprego para meninos dessa idade. Já meu filho, nascido em 74, somente com cerca de 24 anos (1998) começou a trabalhar. Mesmo considerando a estagnação dos anos 80 e início dos 90 a oferta de postos de trabalho caíra drasticamente.

 

Sobre a questão do jovem querer trabalhar, principalmente aquele cuja família é pobre, acrescento ainda que, menino de meus doze, treze anos, de família pobre e numerosa, para fazer dinheiro, catava sucata de cobre e ferro, esterco nos pastos da vizinhança onde morava no interior, e na construção de fronte à minha casa trabalhava retirando das pedras a massa de concreto nelas pregado para reaproveitamento. Também buscava, durante o período de veraneio, no parque municipal de Caxambu, sul de Minas, água mineral para turistas num garrafão de 5 litros. Tudo por iniciativa própria e com supervisão de meus pais. Como disse, ingressei no mercado formal aos 15 anos, ganhando o salário de menor, então equivalente a meio salário mínimo.

 

Quero dizer com o relato acima que, já naquele tempo, o desejo de inserção no mundo formal do trabalho me impulsionava, e olhe que não havia a pressão de consumo que há hoje. No meu caso era a vontade de ir ao cinema, comprar revistas em quadrinho e jornal. E, aspecto muito importante, trabalhava para mim mesmo.

 

Outro depoimento que me parece útil: no meio rural, há 40, 50 anos, os meninos começavam a trabalhar cedo, com 12, 13 anos. O jovem era integrado ao trabalho desde novo, tinha orgulho disso, era respeitado e sentia-se reconhecido socialmente.

 

A questão que se coloca é: o jovem é ou não é capaz de assumir responsabilidades, sobretudo hoje, nas condições em que vivemos?

 

A proteção radical, geral e restritiva que a sociedade lhe impõe através das leis é adequada? E a contrapartida de considerá-lo incapaz, irresponsável, tornando-o refém da informalidade, sobretudo das atividades ilegais ou marginais, não representa uma realidade nos dias de hoje?

 

Não estou falando das atividades impróprias, insalubres, a que são submetidas as crianças nos bolsões de miséria. É preciso ter cuidado, fiscalizar, acompanhar. Esses bolsões de miséria onde as crianças são exploradas, isto é, não trabalham para si, mas para os adultos, merecem atenção especial. Mas não invalidam o argumento aqui colocado.

 

Voltando ao artigo do professor Joel Birman:

 

"Despossuídos que foram de qualquer reconhecimento social e simbólico, aos jovens restaram apenas o corpo e a força física. É por essa trilha que podemos interpretar devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade."

 

"Vale dizer que, em consequência das novas condições precárias do mercado de trabalho (...) as classes médias e as elites passaram a se defrontar com os mesmos impasses, nos registros do reconhecimento social e simbólico que marcaram outrora apenas as classes populares."

 

Comentário: Para o professor Birman, a violência se explica pela falta de reconhecimento social e simbólico. Trocando em miúdos, essa falta do que fazer, para onde ir, essa suspensão no tempo, conjugada, a meu ver, com fatores como o estímulo maciço à concorrência, sobretudo pelo consumo (ter o "melhor" significa ser o melhor e, sobretudo, ser aceito, reconhecido), a falta de referências e de autoridade (em face da precariedade do núcleo familiar hoje), a banalização da violência sem punição, e, no caso de nosso país, o formidável êxodo rural que inchou as cidades e desterrou social e culturalmente uma enorme população, tudo isso aumenta a pressão e cria insegurança.

 

O êxodo rural, o fluxo migratório entre regiões e cidades do país, trouxe enormes contingentes para uma terra de ninguém na periferia das cidades. Terra de ninguém porque a grande maioria das pessoas não tinha cultura urbana e nem a ela teve acesso, e a cultura que possuíam de nada lhes valeria na cidade.

 

Minha família viveu em três periferias belorizontinas. Eram compostas, em sua grande maioria, por pessoas que vieram do interior. Num primeiro momento, os que vieram lograram empregar-se e estabelecer moradia em razoáveis condições, dotadas de cisterna e fossa. Com as leis trabalhistas estendidas ao campo, o êxodo ampliou-se enormemente. As pessoas não encontravam emprego, não tinham como adquirir lotes regulares, eram forçadas a invadir áreas ribeirinhas ou ocupar vertentes estabelecendo seu barraco improvisado.

 

Sob condições precárias de moradia e emprego, famílias se desintegraram, crianças e jovens ficaram a mercê das circunstâncias, constituindo uma população cujos laços sociais inexistiam, marcada pelo anonimato. Sem identidade, sem os laços comunitários que os unia antes, viraram, como enfim toda a gente, massa de manobra dos meios de comunicação, que inoculam o desejo de consumo como valor social e fazem a pregação política alienada, distante dos interesses do eleitorado.

Ser Jovem Hoje (II)

Retornando ao professor Birman:

 

"Não obstante tudo isso, a juventude é ainda glorificada como a representação do que seria o melhor dos mundos possíveis. [...] Contudo, se fazemos isso é porque não apenas queremos cultivar a aparência juvenil, por meio de cirurgias plásticas e da medicina estética, mas também porque o código de experimentação que caracterizou a adolescência de outrora se disseminou para a idade adulta e para a terceira idade."

 

"Constituiu-se assim uma efetiva adolescência sem fim na tradição ocidental...."

 

Comentário:

 

Essa "adolescência sem fim na tradição ocidental" concorre com o espaço de jovens adolescentes. O adultos (eternos jovens) o tomaram. Mas o professor Birman parece ter razão. Ele usa o termo "adolescência infinita".

 

De fato, os adultos hoje imitam os adolescentes sob todos os aspectos. Da busca de novas experiências ao vestuário, passando pelas cirurgias e intermináveis tratamentos de beleza.

 

Ou seja, os adultos usurpam da adolescência o seu "status", o seu lugar temporal. E o pior, fazem pouco caso de suas obrigações de adultos. Em face das novas "leis" de mercado, que os exige dia e noite, subestimam a sua função de pais e mães, de mestres, enfim, ou de potenciais educadores e doadores de exemplos, como seria natural.

 

Não têm tempo para se dedicar às crianças e aos jovens, porque estão muito preocupados como o seu "futuro", a sua aparência, os seus empregos, a sua renda que não pode diminuir, pelo contrário.

 

Evidente que isso é resultado de um processo de catequização midiática. Os adultos de hoje já são produto da deseducação maciça dos meios de comunicação e da publicidade. Nesta, prevalece a eterna infância/adolescência/juventude, que são os grandes protagonistas da publicidade maciça que todos recebemos em casa, sem quaisquer críticas, limites ou censuras.

 

O resultado final, sem bem olharmos as nossas próprias atitudes, os nossos hábitos, o nosso comportamento, é que através desse processo, que começa com a publicidade maciça dirigida às crianças, estamos cada vez mais nos tornando massa de manobra, bois de presépio, sem vontade própria, trabalhando e consumindo sem parar, sem pensar, sem examinar alternativas, enquanto as crianças e, sobretudo, os jovens adolescentes se perdem, sem saber o que fazer, para onde ir.

 

Os que superam esse vazio tornam-se como os demais adultos, escravos da ciranda consumista que os obriga a trabalhar cada vez mais.

 

Para quem nasce na frente da televisão e não tem quem lhe restrinja o tempo, lhe esclareça e lhe dirija os hábitos e as ações, o mundo é só aquilo que se vê: um convite ao desejo de possuir coisas — o tempo todo — ou seja, ter para ser.

 

  

Alguns pingos nos meus is
1) Frei Betto apresenta em sua coluna no Correio da Cidadania o texto denominado "A Roda da Fortuna" (http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6091:freibetto260711&catid=17:frei-betto&Itemid=55), do qual destacamos o seguinte trecho:

"Agora o mundo mudou, e eu com ele. Meu idealismo também se tornou obsoleto. Já não bafeja a minha vaidade, nem me traz vantagens. Findou o mundo em que havia heróis, protótipos, modelos a serem seguidos – Gandhi, Mandela, Che. Hoje os paradigmas são pessoas de sucesso no mercado, celebridades, essa gente bonita e rica que ostenta luxo, esbanja saúde e ocupa sorridente as páginas das revistas de variedades.

Que vantagem levo ao arrastar para a pós-modernidade um mundo obsoleto que ninguém mais admira nem quer ouvir falar? O Muro de Berlim ruiu, os éticos não amealharam fortunas, os antigos valores soam agora como bregas, ultrapassados. Pobre de mim se insisto em me manter apegado a eles! São todos obsoletos.

Vivemos agora no novo mundo em que tudo é continuamente deletável e descartável. Do meu computador ao carro, do estilo de vida à arte, tudo que é in hoje será out amanhã. Resta-me manter atento nesse esforço permanente de atualização. E não me cobrem coerência! Se minha própria aparência física sofre freqüentes modificações por força de malhações e tratamentos estéticos, por que minha identidade deve permanecer imutável?"

O texto é irônico do ponto de vista de Frei Betto enquanto autor. Mas o narrador do texto pode ser qualquer um de nós. Sobretudo, revela, disseca, o pensamento (a confissão) de alguém ali no meio da classe média alta, jogando seu "game" para defender sua posição e/ou continuar "subindo" no ranking da fama e da fortuna.

 

E é esse o tipo de pessoa/pensamento/ação que as mídias valorizam como modelo para toda a sociedade, independentemente do abismo de classes que a caracteriza, e da função primordial por trás dos holofotes, dos que produzem e consomem, sem dar palpites.

 

Por falar em "game", e mudando de assunto, mas não de conexão, pareceu-me a reprodução exata de um jogo o assassinato em série ocorrido na Noruega. Indiferença, ausência do sentimento da gravidade do fato, é o que me impacta em ações semelhantes.

 

A norma moral, religiosa e civil, do "não matarás" está enfraquecida. Está no horizonte a do "olho por olho".

 

2) A propósito das vacilações sobre a decisão do STF que reconheceu na união homossexual os mesmos direitos da união heterossexual, protagonizadas por um Juiz de Direito e por parlamentares no Congresso, devo dizer e devo reafirmar:

 

o Estado tem que ser laico, e o STF, os demais tribunais são instituições pertencentes ao Estado. O Estado é o espaço que nos abriga a todos, com as nossas diferentes religiões, com os nossos diferentes livros sagrados.

 

Como representante do Estado, no exercício de minha função pública, não posso decidir com base no Alcorão, na Cabala, ou na Bíblia, nem em qualquer livro sagrado de seu respectivo credo religioso.

 

Fazê-lo é como fragmentar o espaço público em várias "nações", cada qual brandindo as verdades de seu livro como uma nova Constituição, do que decorreriam conflitos inevitáveis, a exemplo do que já ocorreu e ocorre no mundo.

 

Parece-me que se trata de algo simples e de fácil entendimento a idéia do Estado laico, tanto quanto profundamente importante e imprescindível para a existência de uma sociedade pacífica e pacificada, posto que regulada por um único corpo de leis democraticamente constituídas.

 

Que não se admita, por exemplo, a união homossexual no espaço desta ou daquela religião. É lícito. Mas não se pode negar esse direito no espaço público, uma vez democraticamente constituído.

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