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Aíquetánézé
 


Cartas à minha Amiga

Querida Amiga;

Ainda outro dia falava com você sobre assunto correlato. Da virtualidade das relações. Sei que meu nome está na rede, e o de quase todo mundo também. Imaginei que, se houver uma ditadura, e tudo indica que ela poderá ser mundial, global — calma, não é pra amanhã, talvez para depois de amanhã — eu, e todas as pessoas, poderão ser facilmente localizadas, quase como o eram no livro "1984".

Outro aspecto no qual venho pensando, e que está no texto que vc. mandou, e que abrange esta pergunta: que consequências já poderíamos perceber no mundo globalizado, dominado por uma mídia sobretudo televisiva empresarial que tomou as rédeas da educação? Da transmissão de valores? Da difusão de regras de conduta? E ainda há as abissais diferenças sócio-econômico-culturais e nos separar em castas sócio-econômico-culturais.



Escrito por Luiz P. Santana às 16h58
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Cartas à minha Amiga (Continuação)

Esse assunto fascinante e terrivelmente ausente na grande e devoradora mídia tradicional sobrevive em guetos relativamente controlados mas ainda pluridimensionais : na TV a cabo, o canal Brasil, por exemplo, graças aos artistas, cineastas, pensadores, escritores, poetas que abrem espaço às múltiplas idéias e à crítica; muito mais sobrevive nos cantos, nos grupos que se interpenetram no grande tecido social. Mas não está nos holofotes. A discussão se empobrece enormemente quando se fala de TV Global. Há um império impedindo a evolução humana.

É assunto para não esquecer. Bj. pra você.



Escrito por Luiz P. Santana às 16h51
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Ser Jovem Hoje (I)

Joel Birman, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da UFRJ, em seu artigo "Ser ou não ser", publicado na revista Cult, na edição nº. 157, de maio de 2011, (www.revistacult.com.br) faz uma interessante análise da posição do jovem na sociedade de hoje. Abaixo, alguns trechos do texto, seguidos de comentários livres deste blogueiro.

 

"Na atualidade, a imagem da juventude está marcada ao mesmo tempo pela ambiguidade e pela incerteza. Digo ambiguidade pois se, de um lado, a juventude é sempre exaltada na contemporaneidade, cantada que é em prosa e verso pelas potencialidades existenciais que condensaria, por outro a condição jovem caracteriza-se por sua posição de suspensão no espaço social, que se materializa pela ausência de seu reconhecimento social e simbólico." (Os trechos destacados são do blog)

 

Comentário: De fato, os jovens não estão vinculados objetivamente a nenhum projeto, não podem responder pelos seus atos, têm cerceado o direito ao trabalho e à assunção de responsabilidades, são tratados como crianças e, não obstante, recebem cobrança como se adultos fossem.

 

O imaginário adulto cultiva a idéia de que, mais cedo ou mais tarde, os jovens atravessarão esse período e se definirão como cidadãos prestantes e responsáveis.

 

Por outro lado, se o jovem não tem posição definida na sociedade, esta mesma sociedade o submete, desde criança, à publicidade maciça e constante e o utiliza para constranger os pais na direção do consumo como um valor social.

 

Voltando ao texto do Birman:

 

"Nesse contexto (da família tradicional) a adolescência foi delimitada como o tempo de passagem entre infância e a idade adulta, na qual o jovem podia empreender experiências nos registros do amor e das escolhas profissionais, até que pudesse se inserir no mercado de trabalho e se casar..."

 

"Desde os anos 1980, no entanto, essa figuração da adolescência entrou em franco processo de desconstrução, por diversas razões. Antes de mais nada, pela revolução feminista dos anos 1960 e 70, com a qual as mulheres foram em busca de outras formas sociais de existência, além da condição materna. [...] Com efeito, as mulheres como mães eram as peças fundamentais para fazer funcionar esse modelo familiar (família tradicional)..."

 

Comentário: A entrada das mulheres no mercado de trabalho, os processos de substituição de mão de obra por novas tecnologias, a extinção e mudança do perfil dos mercados com a globalização, a ampliação do desemprego estrutural, o aumento e a concentração populacional nas cidades, tiveram como principais vítimas os mais velhos e os mais jovens: estes passaram a se inserir no mercado de trabalho mais tardiamente, enquanto os mais velhos eram substituídos pelos mais jovens.

 

Simultaneamente o velho patriarcado perdeu força, a autoridade antes nele centralizada diluiu-se, fragmentou-se, descentralizou-se para formas ambíguas e ainda não definidas, trazendo, por outro lado uma sensação de desordem, de falta de coordenação e/ou referência.

 

Continua Joel Birman:

 

"Foi em consequência desse processo que o tempo de duração da adolescência se alongou bastante, ficando os jovens fora do espaço social formal, lançados perigosamente numa terra de ninguém. Assim, graças à ausência de inserção no mercado de trabalho (espaço social formal adulto), a juventude foi destituída de reconhecimento social e simbólico..."

 

Comentário: Nascido em 1948, devo dizer que por volta de 1962, 63, com quinze anos, iniciei minha vida de trabalho. Havia, portanto, naquela época, oferta de emprego para meninos dessa idade. Já meu filho, nascido em 74, somente com cerca de 24 anos (1998) começou a trabalhar. Mesmo considerando a estagnação dos anos 80 e início dos 90 a oferta de postos de trabalho caíra drasticamente.

 

Sobre a questão do jovem querer trabalhar, principalmente aquele cuja família é pobre, acrescento ainda que, menino de meus doze, treze anos, de família pobre e numerosa, para fazer dinheiro, catava sucata de cobre e ferro, esterco nos pastos da vizinhança onde morava no interior, e na construção de fronte à minha casa trabalhava retirando das pedras a massa de concreto nelas pregado para reaproveitamento. Também buscava, durante o período de veraneio, no parque municipal de Caxambu, sul de Minas, água mineral para turistas num garrafão de 5 litros. Tudo por iniciativa própria e com supervisão de meus pais. Como disse, ingressei no mercado formal aos 15 anos, ganhando o salário de menor, então equivalente a meio salário mínimo.

 

Quero dizer com o relato acima que, já naquele tempo, o desejo de inserção no mundo formal do trabalho me impulsionava, e olhe que não havia a pressão de consumo que há hoje. No meu caso era a vontade de ir ao cinema, comprar revistas em quadrinho e jornal. E, aspecto muito importante, trabalhava para mim mesmo.

 

Outro depoimento que me parece útil: no meio rural, há 40, 50 anos, os meninos começavam a trabalhar cedo, com 12, 13 anos. O jovem era integrado ao trabalho desde novo, tinha orgulho disso, era respeitado e sentia-se reconhecido socialmente.

 

A questão que se coloca é: o jovem é ou não é capaz de assumir responsabilidades, sobretudo hoje, nas condições em que vivemos?

 

A proteção radical, geral e restritiva que a sociedade lhe impõe através das leis é adequada? E a contrapartida de considerá-lo incapaz, irresponsável, tornando-o refém da informalidade, sobretudo das atividades ilegais ou marginais, não representa uma realidade nos dias de hoje?

 

Não estou falando das atividades impróprias, insalubres, a que são submetidas as crianças nos bolsões de miséria. É preciso ter cuidado, fiscalizar, acompanhar. Esses bolsões de miséria onde as crianças são exploradas, isto é, não trabalham para si, mas para os adultos, merecem atenção especial. Mas não invalidam o argumento aqui colocado.

 

Voltando ao artigo do professor Joel Birman:

 

"Despossuídos que foram de qualquer reconhecimento social e simbólico, aos jovens restaram apenas o corpo e a força física. É por essa trilha que podemos interpretar devidamente a emergência e a multiplicação das formas de violência entre os jovens na contemporaneidade."

 

"Vale dizer que, em consequência das novas condições precárias do mercado de trabalho (...) as classes médias e as elites passaram a se defrontar com os mesmos impasses, nos registros do reconhecimento social e simbólico que marcaram outrora apenas as classes populares."

 

Comentário: Para o professor Birman, a violência se explica pela falta de reconhecimento social e simbólico. Trocando em miúdos, essa falta do que fazer, para onde ir, essa suspensão no tempo, conjugada, a meu ver, com fatores como o estímulo maciço à concorrência, sobretudo pelo consumo (ter o "melhor" significa ser o melhor e, sobretudo, ser aceito, reconhecido), a falta de referências e de autoridade (em face da precariedade do núcleo familiar hoje), a banalização da violência sem punição, e, no caso de nosso país, o formidável êxodo rural que inchou as cidades e desterrou social e culturalmente uma enorme população, tudo isso aumenta a pressão e cria insegurança.

 

O êxodo rural, o fluxo migratório entre regiões e cidades do país, trouxe enormes contingentes para uma terra de ninguém na periferia das cidades. Terra de ninguém porque a grande maioria das pessoas não tinha cultura urbana e nem a ela teve acesso, e a cultura que possuíam de nada lhes valeria na cidade.

 

Minha família viveu em três periferias belorizontinas. Eram compostas, em sua grande maioria, por pessoas que vieram do interior. Num primeiro momento, os que vieram lograram empregar-se e estabelecer moradia em razoáveis condições, dotadas de cisterna e fossa. Com as leis trabalhistas estendidas ao campo, o êxodo ampliou-se enormemente. As pessoas não encontravam emprego, não tinham como adquirir lotes regulares, eram forçadas a invadir áreas ribeirinhas ou ocupar vertentes estabelecendo seu barraco improvisado.

 

Sob condições precárias de moradia e emprego, famílias se desintegraram, crianças e jovens ficaram a mercê das circunstâncias, constituindo uma população cujos laços sociais inexistiam, marcada pelo anonimato. Sem identidade, sem os laços comunitários que os unia antes, viraram, como enfim toda a gente, massa de manobra dos meios de comunicação, que inoculam o desejo de consumo como valor social e fazem a pregação política alienada, distante dos interesses do eleitorado.



Escrito por Luiz P. Santana às 14h22
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Ser Jovem Hoje (II)

Retornando ao professor Birman:

 

"Não obstante tudo isso, a juventude é ainda glorificada como a representação do que seria o melhor dos mundos possíveis. [...] Contudo, se fazemos isso é porque não apenas queremos cultivar a aparência juvenil, por meio de cirurgias plásticas e da medicina estética, mas também porque o código de experimentação que caracterizou a adolescência de outrora se disseminou para a idade adulta e para a terceira idade."

 

"Constituiu-se assim uma efetiva adolescência sem fim na tradição ocidental...."

 

Comentário:

 

Essa "adolescência sem fim na tradição ocidental" concorre com o espaço de jovens adolescentes. O adultos (eternos jovens) o tomaram. Mas o professor Birman parece ter razão. Ele usa o termo "adolescência infinita".

 

De fato, os adultos hoje imitam os adolescentes sob todos os aspectos. Da busca de novas experiências ao vestuário, passando pelas cirurgias e intermináveis tratamentos de beleza.

 

Ou seja, os adultos usurpam da adolescência o seu "status", o seu lugar temporal. E o pior, fazem pouco caso de suas obrigações de adultos. Em face das novas "leis" de mercado, que os exige dia e noite, subestimam a sua função de pais e mães, de mestres, enfim, ou de potenciais educadores e doadores de exemplos, como seria natural.

 

Não têm tempo para se dedicar às crianças e aos jovens, porque estão muito preocupados como o seu "futuro", a sua aparência, os seus empregos, a sua renda que não pode diminuir, pelo contrário.

 

Evidente que isso é resultado de um processo de catequização midiática. Os adultos de hoje já são produto da deseducação maciça dos meios de comunicação e da publicidade. Nesta, prevalece a eterna infância/adolescência/juventude, que são os grandes protagonistas da publicidade maciça que todos recebemos em casa, sem quaisquer críticas, limites ou censuras.

 

O resultado final, sem bem olharmos as nossas próprias atitudes, os nossos hábitos, o nosso comportamento, é que através desse processo, que começa com a publicidade maciça dirigida às crianças, estamos cada vez mais nos tornando massa de manobra, bois de presépio, sem vontade própria, trabalhando e consumindo sem parar, sem pensar, sem examinar alternativas, enquanto as crianças e, sobretudo, os jovens adolescentes se perdem, sem saber o que fazer, para onde ir.

 

Os que superam esse vazio tornam-se como os demais adultos, escravos da ciranda consumista que os obriga a trabalhar cada vez mais.

 

Para quem nasce na frente da televisão e não tem quem lhe restrinja o tempo, lhe esclareça e lhe dirija os hábitos e as ações, o mundo é só aquilo que se vê: um convite ao desejo de possuir coisas — o tempo todo — ou seja, ter para ser.

 

  



Escrito por Luiz P. Santana às 14h21
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Alguns pingos nos meus is

Alguns pingos nos meus is:

1) Frei Betto apresenta em sua coluna no Correio da Cidadania o texto denominado "A Roda da Fortuna" (http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6091:freibetto260711&catid=17:frei-betto&Itemid=55), do qual destacamos o seguinte trecho:

"Agora o mundo mudou, e eu com ele. Meu idealismo também se tornou obsoleto. Já não bafeja a minha vaidade, nem me traz vantagens. Findou o mundo em que havia heróis, protótipos, modelos a serem seguidos – Gandhi, Mandela, Che. Hoje os paradigmas são pessoas de sucesso no mercado, celebridades, essa gente bonita e rica que ostenta luxo, esbanja saúde e ocupa sorridente as páginas das revistas de variedades.

Que vantagem levo ao arrastar para a pós-modernidade um mundo obsoleto que ninguém mais admira nem quer ouvir falar? O Muro de Berlim ruiu, os éticos não amealharam fortunas, os antigos valores soam agora como bregas, ultrapassados. Pobre de mim se insisto em me manter apegado a eles! São todos obsoletos.

Vivemos agora no novo mundo em que tudo é continuamente deletável e descartável. Do meu computador ao carro, do estilo de vida à arte, tudo que é in hoje será out amanhã. Resta-me manter atento nesse esforço permanente de atualização. E não me cobrem coerência! Se minha própria aparência física sofre freqüentes modificações por força de malhações e tratamentos estéticos, por que minha identidade deve permanecer imutável?"

O texto é irônico do ponto de vista de Frei Betto enquanto autor. Mas o narrador do texto pode ser qualquer um de nós. Sobretudo, revela, disseca, o pensamento (a confissão) de alguém ali no meio da classe média alta, jogando seu "game" para defender sua posição e/ou continuar "subindo" no ranking da fama e da fortuna.

 

E é esse o tipo de pessoa/pensamento/ação que as mídias valorizam como modelo para toda a sociedade, independentemente do abismo de classes que a caracteriza, e da função primordial por trás dos holofotes, dos que produzem e consomem, sem dar palpites.

 

Por falar em "game", e mudando de assunto, mas não de conexão, pareceu-me a reprodução exata de um jogo o assassinato em série ocorrido na Noruega. Indiferença, ausência do sentimento da gravidade do fato, é o que me impacta em ações semelhantes.

 

A norma moral, religiosa e civil, do "não matarás" está enfraquecida. Está no horizonte a do "olho por olho".

 

2) A propósito das vacilações sobre a decisão do STF que reconheceu na união homossexual os mesmos direitos da união heterossexual, protagonizadas por um Juiz de Direito e por parlamentares no Congresso, devo dizer e devo reafirmar:

 

o Estado tem que ser laico, e o STF, os demais tribunais são instituições pertencentes ao Estado. O Estado é o espaço que nos abriga a todos, com as nossas diferentes religiões, com os nossos diferentes livros sagrados.

 

Como representante do Estado, no exercício de minha função pública, não posso decidir com base no Alcorão, na Cabala, ou na Bíblia, nem em qualquer livro sagrado de seu respectivo credo religioso.

 

Fazê-lo é como fragmentar o espaço público em várias "nações", cada qual brandindo as verdades de seu livro como uma nova Constituição, do que decorreriam conflitos inevitáveis, a exemplo do que já ocorreu e ocorre no mundo.

 

Parece-me que se trata de algo simples e de fácil entendimento a idéia do Estado laico, tanto quanto profundamente importante e imprescindível para a existência de uma sociedade pacífica e pacificada, posto que regulada por um único corpo de leis democraticamente constituídas.

 

Que não se admita, por exemplo, a união homossexual no espaço desta ou daquela religião. É lícito. Mas não se pode negar esse direito no espaço público, uma vez democraticamente constituído.



Escrito por Luiz P. Santana às 17h02
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Comentário para João Antônio Pagliosa

Respondendo ao comentário feito por João Antônio Pagliosa, de Curitiba - PR, no

Correio da Cidadania, www.correiodacidadania.com.br

 Tive grande, esperançosa e ingênua admiração pelo PT no seu nascedouro e no
 período em que, buscando o poder, professava princípios elementares da boa e
 transformadora política. A minha ingenuidade estava em acreditar que pudesse
 haver um grupamento de homens e mulheres brasileiros imunes à cultura que
 nos forma a todos, historicamente forjada na colônia e no escravismo, no
 poder sem oposição, no exercício da administração pública como se privada
 fosse.

 Por isso discordo da colocação de que "Após a entrada do PT no comando do
 país, vimos assistindo uma lenta e gradual desmoralização da democracia, da
 ética, da moral, da educação, e dos bons costumes.", como se, desde priscas
 e remotas eras, os brasileiros se governassem despidos de seu autoritarismo,
 de seu sentimento de impunidade, de sua arbitrariedade e desrespeito à "res
 publica", de sua indiferença e comodismo com relação à miséria de milhões de
 brasileiros. Pelo contrário, bem o sabemos.

 Não estou dizendo que a coalisão (ou as coalisões como PSDB/DEM/outros ou,
 como agora, PT/PMDB/outros) que ora governa não tenha sua parcela de
 responsabilidade para com o estado de coisas. Claro que tem. Mas, antes,
 quero enfatizar, somos todos responsáveis. Somos todos filhos dessa formação
 colonial e escravista que nos aleijou o caráter, de tal forma que levaremos
 bastante tempo para alcançarmos um patamar condizente com algo próximo da
 civilização que, aliás, nem americanos ou europeus têm.

 Estamos na verdade vivendo um tempo em que, no mundo, exacerbam-se as
 contradições, sobretudo entre o que se fala e o que se faz. Os meios de
 comunicação estão deixando a nu o verdadeiro caráter de pessoas e de países
 e suas políticas. As nossas contradições, particularmente, exacerbaram-se
 nos últimos 20, 30 anos, quando tivemos a oportunidade de nos conhecer
 melhor, de trazer à luz o comportamento de velhos coronéis da política,
 eclipsados momentaneamente pelo militarismo da ditadura. Desde então pudemos
 ver pela primeira vez no país o Ministério Público criar dificuldades para
 figurões, bem como assistir embasbacados aos (ainda raros) figurões de altos
 negócios fazerem estágio, ainda que breve, nos cárceres das autoridades
 policiais.

 Somos o país da justiça lenta e corporativista, de um congresso que mal
 representa a desigualdade de que somos vítimas não tão inocentes, de um
 poder executivo que se divide entre amenizar a miséria e atender aos pleitos
 dos poderosos lobistas. Isso tudo não veio de uma vez só. O que se vê hoje é
 natural desdobramento de um processo que excede os 511 anos de nosso país,
 que vem lá dos ibéricos, sua política e religiosidade marcadas pelo jogo de
 interesses e pela corrupção que caracteriza todo e qualquer estado
 despótico, sobretudo os que reinam sobre uma base ignara e mística.

 Faço estas ponderações porque considero que insistiremos no erro ao
 partidarizar a análise dos fenômenos que tanto nos assustam, como corrupção,
 criminalidade, alienação, despotismo, improbidade, etc.. Seríamos capazes de
 construir um corpo de idéias básicas, em torno das quais erigir
 plataformas para novos candidatos, capazes de assumir com honestidade de
 princípios a missão de representar o eleitor? E olhe que não falei de
 partidos. Tento falar de princípios. A democracia americana faz água. Mais
 da metade dos parlamentares que terminam seu mandato são cooptados pelo
 poder econômico para fazer "lobby". É muito complicado. O econômico dita a
 regra, dá o tom, condiciona as ações. E nós não estamos fora disto.

 Grande abraço,

 LPSantana
 BH/MG



Escrito por Luiz P. Santana às 13h04
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Professor Roberto Romano analisa o funcionamento do Brasil

Duas entrevistas muito interessantes e elucidativas do Professor Roberto Romano sobre o funcionamento dos poderes no Brasil e suas raízes absolutistas, coloniais e escravistas, podem ser lidas em:

 

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5943:manchete140611&catid=72:imagens-rolantes

 

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=3460&Itemid=79

 

Vá até lá e ajude a fazer uma reflexão sobre nós brasileiros e nossos grandes problemas.



Escrito por Luiz P. Santana às 17h10
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Janela em Lagoa D'antas - Marataizes - ES



Escrito por Luiz P. Santana às 14h15
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A dança de Gene Kelly

Querida Amiga;
 
Que sonho esse Kelly cantando na chuva. Ali, numa simples, e talvez por isso mesmo belíssima cena o arquétipo do sonho daquela geração que ficou como um ícone tempo afora: um mundo maravilhoso em que tudo se encaixa e se transforma em alegria, inspiração, empatia, brilho.
 
Por falar nisso, ontem viouvi caetano falando sobre o envelhecer. Uma garota perguntou a ele se ele tinha saudade dos tempos passados, da tropicália, dos novos baianos, tempos em que ele agitava sem lenço nem documento; Caetano respondeu que não, não tinha saudades, lembrava com gosto mas não com saudade; do que sentia falta era da energia de sua juventude, daquela força que lhe permitia fazer tudo e muito mais. E chamou a atenção da meninada com um conselho, talvez, inútil: aproveitem esse momento, dá tempo para tudo (referindo-se às queixas de falta de tempo) dá, dá tempo, frisou Caetano, aproveitem que esse é um momento precioso, que há de passar e que não tem nome...
 
É vero. Minha tia Clélia (Kera, para mamãe) batalhadora incansável à testa de um Centro Espírita em Esmeraldas, aos 86 anos sente fraquejar-lhe o coração.
Em visita, sentados na varanda do fundo da casa simples e arejada, cabeça inclinada ela disse mais ou menos assim: "pois é, justo agora que chegamos até aqui, que as coisas estão arranjadas, que é preciso continuar eu não posso mais, tenho de me recolher..."
Ela sorria como uma menina frustrada, que entendia o "castigo"...
 
Não há dúvida. Entendo quase perfeitamente o que dizem e sentem essas pessoas. Tanto as que sentem saudade e o confessam, quanto as que dizem não sentir, ou sentem mas não de maneira dolorida, porque percebem que o tempo de hoje é tão bom quanto o de ontem. Apenas lhes falta — e isso talvez seja o dado comum a todos — a energia da juventude, como bem disse Caetano.
 
Eu disse que entendia quase perfeitamente. Quase, porque ainda sou capaz de fazer declarações malucas (e talvez só declarações) que me deixam agoniado pelas consequências que poderiam suscitar. Ainda bem que você, na sua bela idade, jogou certa água fria. Se você não o fizesse, eu o faria. Com alguma ressalva, claro. Sabe-se lá?


Escrito por Luiz P. Santana às 14h03
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Ivan Illich

Ivan Illich (Viena, 4 de setembro, 1926 - Bremen, 2 de dezembro, 2002), foi um pensador e polímata austríaco.

 

O nome é quase idêntico ao do personagem de Tolstoi, Ivan Ilich, no conto "A Morte de Ivan Ilich".

 

Os trechos abaixo ilustram a agudeza e inquietação do pensamento de Ivan, questionando os rumos da nossa sociedade mundial que vivenciou, sobretudo na segunda metade do século passado. Portanto, conheceu o a vida tal como a vivemos hoje no planeta.

 

Por fim, uma advertência: o objeto decisivo e fundamental da mensagem de Ivan Illich, e de todas as idéias que compartilho com os leitores deste blog, é fazer com que tenhamos um ponto de vista crítico e independente sobre todas as manifestações e ações humanas.

 

Ou seja: para que não nos escravizemos inconscientemente aos dogmatismos e maniqueísmos dessa sociedade de consumo em que estamos metidos, e de outras que possamos equivocamente inventar. Para que não sejamos meras máquinas repetidoras, trabalhando e consumindo indefinidamente e cada vez mais alienados, sem pensar na razão de ser das das coisas.

 

É preciso lembrar sempre que a civilização não nasceu pronta e que nós, humanos, a estamos inventando desde os primórdios. Portanto, ainda não está pronta. Pode mudar, deve mudar, e muito.

 

Vamos ler alguma coisa que Ivan Illich escreveu:

 

"Empanturrado na sua felicidade climatizada, o homem é um gato castrado: não lhe resta senão a raiva que o leva a matar ou a matar-se."

 

"Após a Segunda Guerra Mundial a racionalização da produção penetrou nas regiões ditas atrasadas e as metástases industriais exerceram sobre a escola uma intensa procura de pessoal programado."

 

"A proliferação do bem-estar exige o condicionamento apropriado para viver nele."

 

"O que as pessoas aprendem nas escolas que se multiplicam na Malásia ou no Brasil é, sobretudo, a medir o tempo com o relógio do programador, a avaliar o progresso com os óculos do burocrata, a apreciar o consumo crescente com coração de comerciante e a considerar a razão do trabalho com os olhos do responsável sindical."

 

"Isto não é o professor quem o ensina, mas sim o percurso programado, produzido e, ao mesmo tempo, obliterado pela estrutura escolar. O que o professor ensina não tem nenhuma importância desde que as crianças tenham que passar centenas de horas reunidas por escalões etários, entrando na rotina do programa (ou currículo) para receber um diploma em função da respectiva capacidade de se submeterem a ele. O que aprendem eles na escola? Aprendem que quanto mais horas lá passem, mais valem no mercado."

 

"A imprensa, a rádio e a televisão já não surgem unicamente como meios de comunicação, desde que foram deliberadamente postos ao serviço da integração social. Os semanários que desfrutam de expansão, ao encherem-se de informações estereotipadas, convertem-se em produtos acabados, fornecendo completamente embalada uma informação já filtrada, asséptica, pré-digerida. Esta "melhor" informação suplanta a antiga discussão no fórum; a pretexto de informar, suscita um apetite dócil por alimentos já preparados e mata a capacidade natural de selecionar, dominar e organizar a informação. Oferecem-se ao público algumas vedetes ou alguns especialistas vulgarizados pelo embalador do saber e reduz-se a voz dos leitores à correspondência ou às respostas aos inquéritos, por eles enviadas docilmente."

 

"Mudar a equipe dirigente não é uma revolução. Que significa o poder dos trabalhadores, o poder negro, o poder das mulheres ou o dos jovens senão o poder de tomar o poder estabelecido? Um tal poder é, no máximo, o de dirigir melhor o crescimento, assim posto em condições de prosseguir o seu curso glorioso, com tão providenciais tomadas de poder. A escola, quer nela se ensine marxismo, quer fascismo, reproduz uma pirâmide de classes de falhados. O avião, ainda que possa ser acessível a um trabalhador por ocasião das férias, reproduz a hierarquia social com uma primeira classe para gente que julga o seu tempo mais precioso do que o dos outros."

 

[in A Convivencialidade: Lisboa, trad. Arsénio Mota, Publicações Europa-América, 1976]. (Trechos e informações retirados do blog http://pichacoesciberespaciais.blogspot.com/2008/12/vozes-razoveis-505-ivan-illich-2.html)

 

Bem, bem, bem. O cara, como muitos outros, não fala o que a maioria de nós está acostumada a ouvir e aceitar como verdade imutável. Não. Ele critica o mundo que aí está e no próprio texto subjaz o contraveneno. Claro que sempre haverá escola, idéias, regras, hierarquia, rotina, ideologia. Mas, abertos, discutidos, mutáveis na medida em que todos tivermos conhecimento, educação, consciência do nosso papel e do de cada cidadão na sociedade.



Escrito por Luiz P. Santana às 22h23
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Marataízes - ES (Lagoa Danta)

"Os barcos ancorados impedem

o naufrágio do pensamento

na vertigem das águas."

 

(In "Beira-Mar")



Escrito por Luiz P. Santana às 12h01
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Pego estrada amanhã

Amanhã pego estrada

levado pelo planeta

(em relação ao sol

irei mais rápido?)

e pelo motor do automóvel.

Levado pelo planeta

em relação às estrelas

é certo que irei mais rápido

e minha esperança

de uma boa viagem

será concretizada

ao cabo e ao fim.

 

Pego estrada amanhã

rumo ao Atlântico oceano

que imaginei pelos olhos

de meu irmão

enquanto falávamos

ao telefone.

Não era o feicebuck

nem o tuiter: mas era

sua voz ao telefone

e as palavras "mar"

"olhando", "cervejinha"

"calor" e "brisa".

 

E era, também, comunicação

em ato. Pego estrada amanhã

no sentido BH – litoral e

a viagem promete mais um

dia feliz. Tomarei cuidado

nas curvas e nas retas piscarei

o farol. Não me esqueço dos que lutam

pela sobrevivência

lá no Rio de Janeiro.

Estivesse lá

para além da menção adentraria

a lama e ajudaria

a desatolar a vida.

Mas lá não estou. Confio em que

a espécie se salvará. Somos assim.

Viajamos. Sempre. Desorientados.

Aprendizes. Vamos em frente.

 



Escrito por Luiz P. Santana às 07h10
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Natais (Uma data e alguns poemas)

Foto de Radamés F. de Souza

 

Prazer e Sono

 

Chuvas torrenciais à meia noite

Do dia vinte e cinco de dezembro.

Vertia o ano de noventa.

Seus olhos sonolentos despediam

A noite barulhenta.


Telinha silenciada — o som da chuva

E todas as mulheres amparadas.

Não há paixão, nem há tesão, nem nada

Nas imagens cuja mímica adivinho.


Não estou sentimental, nem há carinho

No ato de pensar este poema.

Apenas uma coisa me condena:

Vontade de dormir, que ainda adio.


Queria prolongar essa novena

Cujo prazer difuso me divide.

Quero gozar os versos do poema

E o acalanto dessa chuva mansa.


Vivem-me os sentidos percorrendo o tema

Morrem-me os olhares e os meus movimentos.

Ainda dividido no dilema

De pensar o verso ou de dormir com o tempo.

25/dez/90


Alguém se lembra dessa noite em 1990? Onde você estava entre meia-noite e três da manhã? Posso lhe garantir uma coisa: se for em BH, chovia.

 

Os Seres de Dezembro

 

Eis que por dentro fazem-se dezembros

os meus olhos, e há um tom que já conheço

e uma voz que já ouvi

inconfundíveis em dezembro

 

há olhares felizes em dezembro

e brilhos de umidades em dezembro

e as vozes de dezembro são suaves

deslizam sem cuidado atrás das portas

do tempo que é nuvem em dezembro

e é cinza em toda a parte

 

dezembro, como sabes, não tem lógica

e tudo está embrulhado pra presente

e dá-se e se recebe inconseqüentemente

 

e mesmo aquele, como eu

que só espreita

do fundo de uma vã melancolia

se lampadeja de cores silenciosas

que implodem na contemplação

de homens e mulheres e crianças em dezembro

dos seres de dezembro.

 

Dez/2003

 

A morte de um grande amigo nesse ano arrastou-me para um tempo de recordações. Tomado pela emoção, lavrei esse poema atravessando velozmente épocas ate restar solitário no lugar-sede onde, praticamente, nossa amizade começou.

2004, Natal

 


Rasga-me o peito uma emoção difusa

penso na Diva e nas suas meninas

penso na Dete e no seu violino

penso na uva e no sabor do vinho

aflora-me à pele um tempo de arvoredos

de caminhos de terra há muito repassados

de martelos e pregos de meu pai carpinteiro

de manhãs chuvosas e minha mãe lidando

muito mais preocupada com as coisas ditas

que com as coisas feitas

pois as coisas feitas serão sempre as mesmas:

não serão fantasmas.


Lembro-me das casas entre luz e sombra

meus irmãos distantes alegres ou tristes

e da busca intensa da felicidade.


Penso no tempo que trouxe meus filhos

cada qual seu modo e sua caminhada.


Pois assim pensando larguei o poema

sobre a mesa oval da casa lá da roça

numa noite imensa de um tempo incontido

nestas frases feitas:


Ilha imaginária — farol de palavras.


Dez/2004

 

Reto e Rude

 

Agora, sob a forma de um soneto

Em decassílabos arquitetado

Nenhum milagre ou mágica prometo

Apenas a razão e o ar de enfado.

 

Em todos os Natais, antes, notava

A religiosidade — um arremedo

Daquilo, que em verdade, só tratava

De dar graças aos deuses, sem brinquedo.

 

O mote, d'antes, era uma atitude

De gratidão pela fartura feita

O coletivo em transe era a virtude.

 

Hoje o comum é uma visão estreita:

Trabalho igual consumo reto e rude

Enquanto o capital faz a colheita.

Dez/2008

 

Feliz Natal

 

Nesse fim de ano úmido e cinzento

Que se reparte em telas de TV

Computadores celulares e câmeras digitais

Vitrines coloridas luzes em cachoeira

Faróis e brilhos guarda-chuvas capas

Enchentes lama muita lama e gente

Soterrada e gente ao Deus dará

Sobretudo gente que sobrevive

E fotografa e filma a própria desgraça

À beira do abismo ou das águas

Migrantes desde os tempos das fornalhas

Das madrugadas no campo ou no engenho

De cana rapadura garapa e pinga da boa.



As caras como sempre dessa gente humilde

Dos lenços na cabeça às botinas surradas

Compõem o presépio em que nossa Senhora

Aureolada de chips and leds faiscantes

Os bichos e os reis magos velam

Ao menino Deus deitado sobre as palhas

Finalmente habitantes do ciberespaço

Muito embora antiqüíssimos e ultrapassados

Esquecidos na voragem da cidade em festa

Grande cidade onde se vende e compra

Tudo e além de tudo a própria lenda

Vitrificada ou em aço ou em madeira pura

De lei trazida do âmago da Amazônia.



Os automóveis locupletam estradas

Antigas ruas mornas de andar a pé

São corredores velozes e vorazes

E audazes são aqueles que se atrevem

Sob chuva e brilhos e águas espargidas

Muros contíguos casamatas frias

Àrvores de natal engaioladas janelas

Entrevistas por entre grades e cerca viva

Ou pelo portão que num lampejo se abriu e se fechou

Audazes — eu dizia — são aqueles que se atrevem 

A andar a pé sob o impulso de vaga alegria.



Mas, assim mesmo freme e eu comparto

as dores natalinas, em que esquecidas

ou reformuladas, as manifestações de júbilo

e de festa sangram nos vinhos e ardem

nas janelas, de onde se pode ver ainda

o piscar solitário das multiluzinhas

e se pode ouvir os vivas e as exprobrações

algum fastio à guisa das repetições

enquanto a noite vai, passa e se encerra

como um imenso fausto bólido brilhante

vazio de promessas.


Aqui no meu pedaço de cidade a Rua Luar de Minas

Que já foi outra e agora é um corredor murado

De lado a lado aos poucos se tornando

Pátria sem dono terra de ninguém

aqui eu vivo a vida como um exilado

junto a outros exilados circunstanciais

em nossas ilhas ou terras prometidas

nosso pedaço de céu e mundos virtuais

daqui eu vejo os morros cobertos de casas

à guisa de presépio brilham luzes e fachadas

árvores se estrelam úmidas e enevoadas

e a noite de natal transcorre múltipla sonhada

enquanto lá no mato bem adentro beira-rio

ressonando o planeta em seu milagre cósmico

flui noite qualquer de vaga-lumes e grilos.


Dez/2009

 

Mande-me seu poema, sua crônica, sua carta, seu bilhete, seu escrito, sua palavra. Pode ser relativo a qualquer época e assunto. Não importa se você nunca mostrou pra ninguém. Se tiver foto, ponha. Mande-me que eu publico aqui neste blog (http://aiquetaneze.zip.net) com muito prazer. Ou faça você mesmo o comentário.

Feliz Natais!!! E felizes Anos Novos.

 

 



Escrito por Luiz P. Santana às 02h21
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Carta para minha amiga

Amiga, esse mes devia chamar-se Dezembro de Natal, ou Natalezembro, Dezembrotal (parece nome de remédio), esse mes é uma verdadeira árvore de natal, em todas as vias há luzes brilhando (e o reflexo da chuva ajuda). Estive na roça e lá, no meio do mato, na beira do rio, não há natal. Não esse natal brilhoso e falastrão daqui, lá, se houver natal, tá nos vagalumes, nas estrelas, na lua crescente, na copa calma dos coqueiros, na lamúria do sabiá, no concerto dos sanhaços. E nos pernilongos e muriçocas que, contra a luz do sol, sobre o verde vivo que explode, fazem sua festa.
Na igreja de Curralinho armam um presépio. Capturei-o em fita. Bom de observar a composição. Palha, folha, galho, serragem, pinturinhas, luzinhas, reis, animais, estrela, o menino, os pais. E gente olhando...
Dezembro é bom... de cair fora. De andar olhando. De fugir da promessa. De lembrar vagamente, sem se importar muito... Ainda bem que dezembro passa correndo, como num sonho.
Mas, vem cá? Que negócio de virus é esse? Por acaso está associado a um e-mail falando de pedofilia no vaticano, notícia divulgado pelo tal de Wikileaks?
Beijo procê, nessa terça, 14 dezembro de 2010. Acabo de ver um filme triste sobre Saravejo.


Escrito por Luiz P. Santana às 23h13
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O ócio no futuro

Falar nisso parece contrasenso, considerando-se os dias de hoje. Mas... Infelizmente o homem está condenado a ter um momento de ócio no futuro. Se ele tiver juízo, claro. E como já previu Domenico de Masi em seu livro "O Ócio Criativo", será, de fato, um momento de ócio, não sei se criativo do modo como o definiu Domenico, mas deverá ser, sim, criativo, até porque já antecipa a idéia de um outro tipo de sociedade.

Isso não aconteceria de imediato, obviamente, uma vez que teremos — e sequer começamos — que despender esforços dobrados para recuperar e redirecionar a vida humana no planeta Terra. Alguém dirá que há hoje um contingente de pessoas subempregadas e outras tantas vagabundando. Claro que sim, porque o sistema não direciona nem organiza o esforço humano de um modo completo, senão  através da concorrência pelo dinheiro nas atividades geradoras de lucro, que não incorporam custos naturais e/ou consequentes, como desmatamento, poluição, etc. O regime de mercado, por outro lado, tem uma visão de curtíssimo prazo, incompatível com a ordem de grandeza do tempo natural, biológico, e o ritmo com que se desenvolve.  

Sim, meus amigos, porque se as coisas mudam (radicalmente) e passamos a produzir objetos duráveis (como antigamente) e fazemos durar as coisas o máximo possível para poupar a natureza — por conseguinte o planeta — mesmo depois de tantas tarefas a realizar, sobrará tempo.

Claro que haverá geração de empregos novos e muito trabalho a fazer: precisaremos de técnicos e bacharéis atuando na regeneração e conservação de córregos, ribeiros, rios, lagos e suas matas ciliares. Precisaremos de muita gente no reflorestamento dessas e de outras áreas.

Precisaremos de gente (até de um número que depois se reduzirá), trabalhando com assistência social, médica, psicológica, educacional, para recuperar e elevar o quociente de conhecimentos (teóricos e práticos) de toda a população planetária — toda, porque os que nos consideramos cultos ou formados teremos que passar por uma necessária reciclagem.

Depois, sobrará tempo. Daqui, quem sabe, uns 250 anos. Novas perguntas circularão pelas nossas mentes: se as diferenças se atenuam, como nos comportaremos? Hoje, são as diferenças que nos singularizam? Como ficaremos amanhã, num mundo em que teremos muito mais afinidades filosóficas, políticas, etc.?

Claro que outros problemas se apresentarão. Teremos tempo para estudar os mistérios que nos cercam, utilizando parcimoniosamente todo o conhecimento e toda a tecnologia de que dispomos e continuaremos criando. O sistema solar continuará seu caminho rumo à extinção/transformação.

Já imaginou? Daqui a 250 anos, palavras como "sucesso", "lucro", "recorde", "bilionário", "miséria", "analfabetismo", "ignorância", "promessa", etc., terão trocado de lugar com palavras como "trabalho", "equilíbrio", "sabedoria", "longevidade", "realidade", "natureza", "paz", "harmonia", "durabilidade", ou mudado de sentido, etc.. Ou não? Bem, de minha parte a grande dúvida é: haverá tempo para tanto? Tempo para nós, fique claro, porque o planeta ainda é forte o bastante para sobreviver à nossa presente ignorância.       



Escrito por Luiz P. Santana às 20h44
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